<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Bom pra burro &#187; Causos</title>
	<atom:link href="http://www.bompraburro.com.br/category/causos/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.bompraburro.com.br</link>
	<description>Sinta-se em casa!</description>
	<lastBuildDate>Tue, 06 Apr 2010 13:40:52 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.0.1</generator>
	<atom:link rel='hub' href='http://www.bompraburro.com.br/?pushpress=hub'/>
		<item>
		<title>A preconceituosa mão de Deus</title>
		<link>http://www.bompraburro.com.br/2010/04/a-preconceituosa-mao-de-deus/</link>
		<comments>http://www.bompraburro.com.br/2010/04/a-preconceituosa-mao-de-deus/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 06 Apr 2010 13:40:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[doença]]></category>
		<category><![CDATA[mão]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamento]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.bompraburro.com.br/?p=137</guid>
		<description><![CDATA[&#8220;Você é uma pessoa religiosa?&#8221;, ele me perguntou sem muita enrolação. &#8220;Não&#8221;, respondi seco. &#8220;Entendo&#8221;, ele disse enquanto acendia um cigarro, &#8220;mas acredita em Deus?&#8221; &#8220;Isso depende&#8230; o que Ele está alegando?&#8221; &#8220;Rá, rá!&#8221; Assim, pensei ter conquistado a simpatia do advogado. &#8220;Você sabe que minha filha é católica.&#8221; &#8220;Sei.&#8221; &#8220;E como fica essa sua [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Você é uma pessoa religiosa?&#8221;, ele me perguntou sem muita enrolação. &#8220;Não&#8221;, respondi seco. &#8220;Entendo&#8221;, ele disse enquanto acendia um cigarro, &#8220;mas acredita em Deus?&#8221; &#8220;Isso depende&#8230; o que Ele está alegando?&#8221; &#8220;Rá, rá!&#8221; Assim, pensei ter conquistado a simpatia do advogado. &#8220;Você sabe que minha filha é católica.&#8221; &#8220;Sei.&#8221; &#8220;E como fica essa sua flexibilidade religiosa no relacionamento.&#8221; &#8220;Confesso que nunca parei pra pensar nisso.&#8221; &#8220;Maria Clara perdeu a mãe faz pouco tempo.&#8221; &#8220;Ela me contou.&#8221; &#8220;As circunstâncias foram&#8230; sinistras&#8221;, ele disse olhando para a parede atrás de mim. Até onde eu sabia, o corpo da mãe de Maria Clara tinha sido encontrado dentro do box do banheiro com o chuveiro ainda ligado, ela estava com os dois globos oculares desprendidos do rosto e toda cagada. Se não fosse a carta de despedida, qualquer um apostaria num homicídio bizarro. A autópsia acusou overdose de triazolam. &#8220;Eu soube, sinto muito.&#8221; &#8220;Tudo bem, só quero que você entenda a importância que Maria Clara tem pra mim.&#8221; &#8220;Eu sei, afinal, também sou pai.&#8221; Ele riu como se eu estivesse brincando. &#8220;Como é?&#8221; &#8220;Maria Clara não disse?&#8221; &#8220;Você é pai?&#8221; &#8220;Olha, foi um erro&#8230; coisa do passado.&#8221; &#8220;Você acha que seu filho foi um erro?&#8221; &#8220;Veja bem, Seu Paulo, eu era jovem.&#8221; Ele franziu a testa. &#8220;Quantos anos você tem?&#8221; &#8220;Trinta e quatro.&#8221; &#8220;Trinta e quatro!? Por Deus, você tá maluco? Minha filha é uma criança!&#8221; &#8220;Seu Paulo, ela me parece bem madura.&#8221; &#8220;Ela tem dezesseis anos, seu infeliz!&#8221; &#8220;Eu sei, mas ela tem uma cabeça bastante desenvolvida para idade.&#8221; &#8220;Que diabos um cara de trinta e quatro anos faria num relacionamento com uma menina de dezesseis?&#8221; &#8220;Como assim?&#8221; &#8220;Vocês nem iam ter o que conversar.&#8221; &#8220;O senhor está subestimando a inteligência da sua filha; além disso, um relacionamento não é feito só de conversas.&#8221; &#8220;Isso é o que me preocupa.&#8221; &#8220;Por favor, Seu Paulo, sua filha não é nenhuma santinha.&#8221; &#8220;Ah, isso você sabe bem, né?&#8221; &#8220;Eu ainda não, mas é só perguntar pra o pessoal do teatro com quem ela anda.&#8221; &#8220;Rá, você tá insinuando o quê?&#8221; &#8220;Sua filha já foi iniciada, Seu Paulo.&#8221; Pra minha surpresa, ele não rebateu. Sentou, arrumou o cabelo (que em seu alvoroço saíra do lugar) e disse: &#8220;Eu sei&#8230; mas ainda assim a diferença de idade é muito grande.&#8221; &#8220;Isso pode ser extremamente benéfico para o relacionamento. Depois de tudo o que Maria Clara passou, talvez ela esteja precisando exatamente de alguém mais maduro.&#8221; Ele me olhou nos olhos. &#8220;Pelo amor de Deus, usem preservativo.&#8221; &#8220;Quanto a isso não precisa se preocupar&#8230; o uso do preservativo já se tornou natural pra mim.&#8221; Ele olhou confuso, ficou um instante em silêncio e perguntou: &#8220;Medo de colocar outro filho no mundo?&#8221; &#8220;Não é isso. Faz oito anos que sou soro positivo.&#8221; Naquele momento, Seu Paulo deve ter clamado por Deus com muita força, pois uma mão gigante arrebentou o teto da casa, me segurou como uma bolinha de tênis e me arremessou em direção à constelação de Orion. No outro dia acharam meu corpo na beira da estrada com os globos oculares desprendidos da face e todo cagado.</p>
<p><a class="a2a_dd addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save"><img src="http://www.bompraburro.com.br/wp-content/plugins/add-to-any/share_save_171_16.png" width="171" height="16" alt="Share/Bookmark"/></a> </p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.bompraburro.com.br/2010/04/a-preconceituosa-mao-de-deus/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O câncer dos outros</title>
		<link>http://www.bompraburro.com.br/2009/12/o-cancer-dos-outros/</link>
		<comments>http://www.bompraburro.com.br/2009/12/o-cancer-dos-outros/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 30 Dec 2009 18:09:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[aliens]]></category>
		<category><![CDATA[câncer]]></category>
		<category><![CDATA[egocentrismo]]></category>
		<category><![CDATA[zumbi]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.bompraburro.com.br/?p=127</guid>
		<description><![CDATA[&#8220;Por exemplo&#8221;, respondi, &#8220;ontem mesmo eu estava lendo um conto de Arthur Bradford sobre um cara que só notou no segundo encontro que a sua atual ficante não tinha um dos braços.&#8221; No entanto, Elisa já não me ouvia mais e só chorava. No dia anterior tivemos uma conversa séria depois do jantar com os pais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Por exemplo&#8221;, respondi, &#8220;ontem mesmo eu estava lendo um conto de <a title="Arthur Bradford" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Arthur_Bradford" target="_blank">Arthur Bradford</a> sobre um cara que só notou no segundo encontro que a sua atual ficante não tinha um dos braços.&#8221; No entanto, Elisa já não me ouvia mais e só chorava. No dia anterior tivemos uma conversa séria depois do jantar com os pais dela onde me foi revelado que a doença que a afligia era câncer. Hoje tomei café e quando Elisa mencionou o câncer, fiquei extremamente surpreso. Foi uma surpresa genuína, como se ela realmente não tivesse me contado sobre seu estado no dia anterior. Não sei o que deu em mim, eu simplesmente havia esquecido da conversa, do sofrimento, do câncer. Agora Elisa acha que eu nunca presto atenção no que ela diz. &#8220;Não exagere&#8221;, pedi, &#8220;foi um lapso, acabei de acordar.&#8221; &#8220;Não se tem lapsos com esse tipo de coisa, Pacífico, você simplesmente provou que está cagando toneladas para mim, fica cada vez mais claro que a única coisa que importa na sua vida é você mesmo.&#8221; Não posso deixar de admitir que parte dessa assertiva estava absolutamente correta. No caso, a parte em que sou acusado de me sentir o centro do universo. Por exemplo, uma vez li <a title="Cardoso, egocêntrico" href="http://www.contraditorium.com/2009/11/11/egocentrismo-sim-egoismo-nao/" target="_blank">num blog</a> que a diferença entre uma pessoa egocêntrica e uma idiota é que o egocêntrico acha que o mundo gira ao seu redor e o idiota acha que as outras pessoas pensam o mesmo. Nesse sentido, não sou idiota, pois permito pacificamente que as pessoas tenham suas crenças, por mais risíveis que sejam. &#8220;É melhor eu ir&#8221;, por fim, ela disse. Resolvi não impedir. Mais tarde senti fome e achei que seria uma boa idéia jantar na casa de Elisa. Quando bati na porta demoraram para abrir e, mesmo assim, quando abriram foi pela metade. &#8220;O que houve?&#8221;, perguntei para a minha sogra, que olhava pelo vão entreaberto. &#8220;Pacífico, é melhor você ir.&#8221; &#8220;Fala sério que ela ainda está com raiva.&#8221; &#8220;Não é isso, Pacífico, é melhor mesmo que você vá embora.&#8221; &#8220;Assim do nada?&#8221; Então ouvi o pai de Elisa gritar para esposa algo tipo &#8220;Peloamordedeusmulhervenhameajudar!&#8221; &#8220;O Seu Pedro está bem?&#8221; &#8220;Vai embora, Pacífico!&#8221;, ela disse enquanto batia a porta. Puxei o celular e liguei para Elisa. Tocou e até deu pra ouvir o toque vindo do lado de dentro da casa. Ninguém atendeu. Encostei o ouvido na porta e pude ouvir o pai de Elisa falando alto e voz da sua mãe numa espécie de clamor. Me pareceu claro que se tratava de uma crise familiar. Talvez descobriram que Elisa estava trocando uns carinhos íntimos com a empregada. Quando Elisa me contou isso nem fiquei brabo. Tem coisas que devemos simplesmente ver pelo lado positivo. Por exemplo, certa vez li um artigo numa revista de sala de espera de dentista que dizia que a porcentagem de mulheres que chegam ao orgasmo se relacionando com outras mulheres é muito maior que a porcentagem de mulheres que gozam com homens — em números relativos, claro. Saber de Elisa e Madalena tirou uma grande responsabilidade das minhas costas. Havia também a possibilidade dos pais dela terem achado os baseados e as 30 gramas de cocaina que trouxemos da última viagem que fizemos para o litoral. Nesse caso, acho que Seu Pedro e Dona Clara tem mais é que dar uns tapas na filha mesmo. E com gosto. Daqueles que deixam a vítima desorientada. Porra burra não esconder o bagulho direito. Se um dia eu achasse maconha e cocaina nas coisas do meu filho, eu levaria ele pra delegacia — mesmo se eu fosse viciado nessas mesmas substâncias. Posso ser drogado, mas pelo menos cumpriria a função de pai. Resolvi bater na porta de novo. Ninguém atendeu. Experimentei abrir e vi que Dona Clara esquecera de tranca-la. Bom pra mim, pensei enquanto entrava. Lá dentro me dei conta que meu sogro havia parado de falar alto, mas pude ouvir a mãe de Elisa rezando. A voz vinha do corredor. &#8220;Dona Clara, por deus, o que houve, diabos?&#8221; Ela, sentada na frente da porta fechada do quarto de Elisa, só rezava e chorava. Pude ver também que um cabo de madeira (provavelmente de vassoura) estava encaixado entre a parede do corredor e a porta do quarto de Elisa, impedindo que esta fosse aberta. Da outra extremidade vi meu sogro se aproximando com uma chave-inglesa em uma das mãos e na outra não havia nada, já que a mão não estava lá. &#8220;Porra, o que aconteceu aqui?&#8221;, gritei, &#8220;Cadê sua mão, caralho?&#8221; &#8220;Vá embora, Pacífico!&#8221; &#8220;Vou ligar pra polícia&#8221;, eu disse puxando o celular, mas Seu Pedro deu um golpe na minha mão e disse que não! e que se eu fizesse isso iam levar Elisa embora. Enquanto ele falava, de repente achei que as coisas ficaram em silêncio. &#8220;Veja&#8221;, disse Dona Clara, &#8220;ela parou de arranhar a porta.&#8221; Assim que ela terminou a frase, ouvimos um estrondo seguido de um som de vidro quebrando. &#8220;Ela pulou pela janela!&#8221;, gritou meu sogro puxando a madeira que segurava a porta. O peso da minha sogra fez com que a porta abrisse. No quarto, a primeira coisa que vi foi o corpo de Madalena banhado de sangue. A janela, por sua vez, realmente havia sido arrombada. Ouvimos um grunhido. Nós três olhamos para trás ao mesmo tempo. Era Elisa — mas parecia mais um bolo fecal fantasiado de Elisa. &#8220;Ela arrudiou a casa&#8221;, disse Seu Pedro como numa epifania. &#8220;Elisa, o que houve?&#8221;, eu perguntei, mas a criatura não respondeu, ela simplesmente pulou em cima da minha sogra. Seu Pedro tentou segura-la, mas foi arremessado contra o armário e lá ficou desacordado. Eu preferi não impedir Elisa e esperei. Quando ela se levantou, parte do corpo de Dona Clara já não estava mais lá. Eu sabia que agora era a minha vez e simplesmente fechei os olhos. Aí, mesmo com os olhos fechados, vi que uma luz forte surgira. Era uma luz roxa. Fui abrindo os olhos e vi Elisa olhando fixamente para essa luz que vinha do alto, fora da janela. De repente, uma voz bem grave disse &#8220;Calma, meu amor, está tudo bem, respire fundo e pense no mar, tente sentir o cheiro daquela colônia que você gosta, fique em paz, feche os olhos e aproveite.&#8221; Aí Elisa começou a flutuar em direção à luz roxa e à voz que foi lentamente se afastando enquanto solfejava uma melodia em ré menor — e eu sei que era em ré menor porque toco violão. Em pouco tempo a luz se apagou. Eu estava tão sobrecarregado com os últimos acontecimentos, que havia esquecido do motivo principal que me levou à casa de Elisa: a fome. Fui até a cozinha, abri um pacote de Passatempo, telefonei pra polícia e enquanto os policiais não chegavam, fiquei tomando Coca Zero e tentando pensar em como eu explicaria o ocorrido para as autoridades. Da cozinha, pude ver que Seu Pedro estava acordando no quarto e, de relance, vi que a calcinha que Madalena estava usando quando foi atacada era branca e com uma ilustração do Bob Esponja. Tive uma pequena ereção, mas tentei desviar o pensamento. Estar com o pênis ereto quando a polícia chegasse só ia complicar as coisas.</p>
<p><a class="a2a_dd addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save"><img src="http://www.bompraburro.com.br/wp-content/plugins/add-to-any/share_save_171_16.png" width="171" height="16" alt="Share/Bookmark"/></a> </p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.bompraburro.com.br/2009/12/o-cancer-dos-outros/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Entre a língua e o palato</title>
		<link>http://www.bompraburro.com.br/2009/10/entre-a-lingua-e-o-palato/</link>
		<comments>http://www.bompraburro.com.br/2009/10/entre-a-lingua-e-o-palato/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2009 20:51:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[burrice]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[fezes]]></category>
		<category><![CDATA[impaciência]]></category>
		<category><![CDATA[língua]]></category>
		<category><![CDATA[mediocridade]]></category>
		<category><![CDATA[palato]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.bompraburro.com.br/?p=107</guid>
		<description><![CDATA[&#8220;Sabia que a soma de todo o tempo que passamos dormindo equivale a um terço da nossa vida?&#8221;, ela me perguntou. Não falei nada na hora, só olhei e sorri, não valia a pena comentar o quanto eu achava imbecil esse tipo de informação, ou pior, o quanto eu sinto desprezo por quem sai repetindo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Sabia que a soma de todo o tempo que passamos dormindo equivale a um terço da nossa vida?&#8221;, ela me perguntou. Não falei nada na hora, só olhei e sorri, não valia a pena comentar o quanto eu achava imbecil esse tipo de informação, ou pior, o quanto eu sinto desprezo por quem sai repetindo essas bobagens só porque em alguma noite mal dormida ligou no Discovery Channel e viu algum pseudo-documentário que, por completa falta de competência intelectual do autor, trouxe tamanha bobagem como dado. É, fiquei calado, não queria deixar que aquela irritação invasora me tomasse o momento de glória, afinal, estávamos juntos novamente, acabáramos de reatar laços partidos a lágrimas. Por um lado, diante do perdão que fora-me concedido havia pouco, não custar-me-ia tanto calar após a verbalização do factóide idiota; por outro, minha cabeça borbulhava de respostas a dar-lhe — a maioria delas grosseira, admito. Olhei para ela e, talvez por causa do brilho no seu olhar, achei que o silêncio ficou incômodo. Ela devia estar esperando uma resposta, algum simulacro de surpresa ou — pior — algo inteligente. Sorri amarelo. Eu poderia, ali mesmo, presenteá-la com a resposta que seus olhos frajolas pareciam me pedir. Sim, eu poderia dizer &#8220;É mesmo, princesa? Onde você viu isso? Nossa, esse documentário parece bem legal, hein? Poxa, um terço é muito, hein? Que desperdício, não?&#8221;, ou algo com o mesmo efeito. Desse modo eu lhe concederia aquela sensação que temos quando sabemos que acabamos de falar algo esperto. Quem sabe até, diante desse meu ato de ternura e caridade, ela viesse a me oferecer um bônus: não só estaríamos juntos de novo como passaríamos a noite fazendo amor. No entanto, olhando por outro lado, dar-lhe tal resposta faria de mim uma paródia, uma cópia tosca de mim mesmo. Seria como misturar minhas fezes num copo com leite, depositar seu conteúdo dentro da minha boca e nunca engolir. Passar a vida com aquela mistura indigesta descansando entre minha língua e meu palato. Não, eu não poderia me sujeitar a tamanha baixaria. Por isso, olhei pra ela e comecei: &#8220;Olha, eu tenho tanta coisa pra te dizer agora que po—&#8221; Então tudo ficou preto. Foi assim que tive o meu primeiro derrame.</p>
<p><a class="a2a_dd addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save"><img src="http://www.bompraburro.com.br/wp-content/plugins/add-to-any/share_save_171_16.png" width="171" height="16" alt="Share/Bookmark"/></a> </p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.bompraburro.com.br/2009/10/entre-a-lingua-e-o-palato/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Nas entrelinhas</title>
		<link>http://www.bompraburro.com.br/2009/10/nas-entrelinhas/</link>
		<comments>http://www.bompraburro.com.br/2009/10/nas-entrelinhas/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 22 Oct 2009 04:32:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[entrelinhas]]></category>
		<category><![CDATA[impaciência]]></category>
		<category><![CDATA[lanchonete]]></category>
		<category><![CDATA[noivado]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.bompraburro.com.br/?p=97</guid>
		<description><![CDATA[&#8220;Um Cavaleiro Mascarado sem tomate e com muita maionese.&#8221; &#8220;E pra beber?&#8221; &#8220;Coca Zero.&#8221; Quando a garçonete saiu, cheguei mais perto. &#8220;Você viu que quando nós chegamos tinha uma pessoa na máquina de tickets do estacionamento?&#8221; &#8220;Vi&#8221;, ela respondeu colocando parte do cabelo para trás da orelha enquanto mexia em alguma coisa na bolsa. &#8220;Fico [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Um Cavaleiro Mascarado sem tomate e com muita maionese.&#8221; &#8220;E pra beber?&#8221; &#8220;Coca Zero.&#8221; Quando a garçonete saiu, cheguei mais perto. &#8220;Você viu que quando nós chegamos tinha uma pessoa na máquina de tickets do estacionamento?&#8221; &#8220;Vi&#8221;, ela respondeu colocando parte do cabelo para trás da orelha enquanto mexia em alguma coisa na bolsa. &#8220;Fico puto com isso.&#8221; &#8220;Isso o quê?&#8221; &#8220;Essas pessoas que ficam ajudando a tirar o ticket da máquina. Simplesmente não faz sentido. Pense comigo. Se os donos do shopping fazem uma reunião de doze horas sobre como cortar os custos do estabelecimento e decidem colocar umas máquinas de ticket de estacionamento exatamente para não ter que pagar alguém para ficar numa cabine anotando placas e entregando recibos enquanto assiste reprise de novela numa televisãozinha de quatro polegadas em preto e branco, por que diabos pagariam um intermediário entre a máquina e o motorista?&#8221; &#8220;A máquina podia estar quebrada&#8221;, ela disse com desdém. &#8220;Não pareceu quebrada pra mim. O cara foi lá, apertou o botão, pegou o ticket e me entregou. Eu mesmo poderia ter feito isso, entende? Me senti roubado.&#8221; &#8220;Tá doido, o cara tava só sendo gentil.&#8221; &#8220;Gentil? Faz-me rir, Gabriela.&#8221; &#8220;Caralho, você sabe que eu fico puta quando você usa ênclise!&#8221;, ela disse apontando. &#8220;Gabi, não precisamos brigar por isso, mas fica parecendo que você está discordando de mim só por discordar.&#8221; &#8220;Você está se apegando a algo que não lhe diz respeito.&#8221; &#8220;Não? Era o meu dedo que deveria ter apertado aquele botão. Se na saída tiver alguém—&#8221; &#8220;Oi&#8221;, disse Samuel que acabara de chegar com Ayala — a razão pela qual tivemos que vir ao shopping. &#8220;Essa daqui é a Ayala.&#8221; &#8220;Oi, Ayala&#8221;, eu disse. &#8220;Prazer, sou Gabriela.&#8221; &#8220;Prazer&#8221;, Ayala respondeu. Então, a econômica e precisa escolha de palavras de Ayala fez com que eu refletisse sobre a quem estas foram direcionadas, e o resultado dessa reflexão (ainda que parcial) me causou um princípio de cólera, já que pareceu-me claro que Ayala, aquela que revelarei nas próximas linhas ser a noiva de Samuel, dirigia-se unicamente à Gabriela, o que indicaria uma clara antipatia por mim, afinal, aos meus ouvidos ela dissera exatamente o seguinte: &#8220;Boa tarde, Gabriela, é um enorme prazer conhecer-te, o Samuel falou muito bem de ti, histórias cheias de deleite, e não sei se estás a notar, mas conscientemente ignoro a presença pútrida dessa asquerosa figura ao seu lado cujo nome faço questão de não recordar.&#8221; Desde cedo aprendi que temos que ler as entrelinhas, era assim que minha mãe dizia, filho, ela repetia, as pessoas nunca dizem as coisas por completo, mas pela metade, e mais da metade do prazer de dialogar com as pessoas é tentar adivinhar o que elas estão querendo dizer de verdade. Obrigado, mãe! Então Samuel puxou a cadeira para Ayala sentar, ela sentou e só depois ele o fez. Gabriela olhou para mim com um meio-olhar, o que significa que ela disse exatamente assim: &#8220;Quem dera que você fosse um companheiro gentil o suficiente para me puxar a cadeira mesmo numa lanchonete de quinta categoria como essa que você insiste em me trazer, nojento.&#8221; Engoli seco e me curvei até o encosto da cadeira a fim de manter uma distância segura naquele ambiente hostil. &#8220;E aí, vamos pedir o quê?&#8221; &#8220;Na verdade, já pedimos.&#8221; &#8220;Já?&#8221;, repondeu Samuel. &#8220;É que vocês acabaram demorando&#8221;, disse Gabriela. &#8220;Certo&#8221;, Samuel disse puxando o cardápio. Ayala não esboçou nenhum tipo de reação, como se esperasse que Samuel escolhesse a comida por ela, mas aí Samuel entregou-lhe o cardápio e disse que hoje ela escolheria. Ayala olhou para o livreto por alguns segundos, uns doze ou treze, e disse &#8220;Esse.&#8221; A garçonete, que já estava ali novamente, quis confirmar, &#8220;Dois Cavaleiros Mascarados?&#8221; &#8220;Isso.&#8221; &#8220;E pra beber?&#8221; &#8220;Água mineral.&#8221; &#8220;Duas?&#8221; &#8220;Isso.&#8221; A garçonete saiu e eu não me contive: &#8220;Quando vocês chegaram havia alguém ajudando a entregar os tickets de estacionamento?&#8221; &#8220;Não lembro.&#8221; &#8220;Não lembra?&#8221; &#8220;Não&#8230;&#8221;, ele respondeu virando para Ayala como se perguntasse se ela conseguia lembrar de algo. É claro que ela conseguia, mas diante do asco que sentia por mim, jamais responderia. Portanto, calou-se. &#8220;Pô, você acabou de chegar&#8221;, eu disse. &#8220;Mas é que nós viemos de ônibus.&#8221; &#8220;Sei, mas não viu nada?&#8221; &#8220;Para com isso&#8230;&#8221;, disse Gabriela tentando ser delicada. Nesse mesmo momento a garçonete chegou com os nossos pedidos. Na verdade, só o meu e o de Gabriela. Quando a funcionária do recinto colocou-os sobre a mesa, fui desembrulhar o meu Ancião Necromancer sem picles, mas Gabriela inventou de dizer &#8220;Vamos esperar o deles chegarem.&#8221; &#8220;Não precisa&#8221;, respondeu Samuel com toda a razão do mundo. &#8220;Precisa?&#8221;, perguntei para Gabriela. &#8220;Precisa.&#8221; A palavra saiu tão compacta que achei mais seguro esperar mesmo a contragosto. &#8220;Ayala&#8221;, disse Samuel, &#8220;mostra aí pra eles.&#8221; Ela sorriu e levantou uma das mãos. Por um instante achei que ela fosse me dar dedo e mandar eu me foder, mas aí Gabriela soltou um gritinho do meu lado, meu coração acelerou de susto e Samuel disse &#8220;Estamos noivos!&#8221; Gabriela ficou muito, muito, muito feliz com a novidade, fez questão de se levantar, abraçar os dois e insistiu que eu fizesse o mesmo. E eu insisti que não precisava e dei dois tapinhas nas costas de Samuel. Eles passaram uns quatro minutos conversando sobre como o pedido foi feito até que, finalmente, vi a garçonete se aproximando com o lanche dos dois. No entanto, nesse mesmo momento, Ayala diz que precisa ir ali rapidinho, se levanta, passa pela garçonete e entra no corredor que leva ao banheiro. Quando a garçonete deixou o sanduíche deles na mesa, segurei meu Ancião Necromancer e dei um gole na Coca Zero. &#8220;Pô, espera ela chegar do banheiro!&#8221; &#8220;Mas por quê? O lanche deles já está aqui.&#8221; Samuel, conciliador como sempre, disse, &#8220;Podem comer, sério mesmo, eu espero.&#8221; &#8220;Tá vendo?&#8221;, eu disse, &#8220;Ele espera.&#8221; &#8220;Caralho, deixa de ser mal educado e espera a menina chegar&#8230; se fosse o contrário ela esperaria!&#8221; Então senti a cólera. Foi muito rápido. Como um ácido que corrói de dentro pra fora, respondi: &#8220;Foda-se, porra! Esperaria o cacete! Até parece que você não notou que ela planejou esse circo! A garota chega aqui, não me cumprimenta, fica me olhando com nojo e deve me achar um retardado infeliz que se masturba todos os dias olhando catálogos de lingerie da Duloren; certamente estamos lidando com alguém que seria capaz de tirar minha vida se tivesse alguma arma em punho; alguém que finge não lembrar do filho da puta da máquina de tickets e decide, convenientemente, ir ao banheiro assim que vê a garçonete se aproximando com a comida! Como é que essa víbora cuja pátria-mãe é o quinto dos infernos faria o mesmo por mim? Como?&#8221; Gabriela parecia não estar esperando uma reação desse tipo e, como se as palavras estivessem entaladas em sua garganta, ficou calada. Samuel simplesmente levantou-se, no caminho encontrou Ayala voltando do banheiro, segurou-a pelo braço e saiu da lanchonete. Virei para Gabriela e perguntei, &#8220;Posso comer meu Ancião Necromancer em paz agora?&#8221; Gabriela acenou que sim, desembrulhou seu Cavaleiro Mascarado, fez cara feia, levantou o braço, a garçonete se aproximou e ela disse, &#8220;Veio com tomate, porra.&#8221;</p>
<p><a class="a2a_dd addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save"><img src="http://www.bompraburro.com.br/wp-content/plugins/add-to-any/share_save_171_16.png" width="171" height="16" alt="Share/Bookmark"/></a> </p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.bompraburro.com.br/2009/10/nas-entrelinhas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Da boca ao reto</title>
		<link>http://www.bompraburro.com.br/2009/10/da-boca-ao-reto/</link>
		<comments>http://www.bompraburro.com.br/2009/10/da-boca-ao-reto/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 15 Oct 2009 22:35:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[aspas]]></category>
		<category><![CDATA[festa]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
		<category><![CDATA[urina]]></category>
		<category><![CDATA[vírgula]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.bompraburro.com.br/?p=94</guid>
		<description><![CDATA[&#8220;E aê, beleza?&#8221;, Edivan disse abrindo a porta. &#8220;Tranqüilo&#8221;, respondi sem dar bola para o caráter genérico da resposta. Entrei de mãos dadas com Eloísa como se não tivéssemos acabado de ter uma discussão daquelas que fica maior do que é. Disse oi para as pessoas que haviam chegado e sentei num sofá que, se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;E aê, beleza?&#8221;, Edivan disse abrindo a porta. &#8220;Tranqüilo&#8221;, respondi sem dar bola para o caráter genérico da resposta. Entrei de mãos dadas com Eloísa como se não tivéssemos acabado de ter uma discussão daquelas que fica maior do que é. Disse oi para as pessoas que haviam chegado e sentei num sofá que, se não me engano, era novo. &#8220;Esse sofá é novo?&#8221;, perguntei, mas Edivan não ouviu e foi pra cozinha. Eloísa saiu para conversar com Alexia, que estava usando um vestido mais curto do que minha fidelidade gostaria. &#8220;Porra, tá gata pra caralho&#8221;, a voz de Hélio disse. Olhei para o lado e era ele mesmo. Para fingir ter problemas em adjetivar positivamente a capacidade que mulheres que não a minha possuem em me atrair sexualmente, olhei encantado pela curvatura incorrigível que o vestido de Alexia fazia assim que chegava ao seu fim, perto da bunda, e não disse nada. Depois de um tempo peguei uma lata de cerveja na geladeira e quando fechei a porta, Hélio perguntou como andava o livro. Supus que ele estivesse me provocando e não me dei o trabalho de explicar que não tratava-se de um livro, mas simplesmente de uma história escrita num documento digital sem maiores intenções de um dia ver os horizontes steampunk de uma gráfica. &#8220;Tá indo.&#8221; &#8220;É isso que a maioria diz.&#8221; Bebi um gole da cerveja e senti uma gota de suor escorrer pela têmpora esquerda enquanto eu me segurava para não lhe perguntar que caralho ele quis dizer com aquilo. Nesse mesmo instante, Alexia e uma outra mulher que até então não conhecia, se aproximaram. &#8220;É você que é o escritor?&#8221;, perguntou a desconhecida. Dei outro gole. &#8220;Na verdade, não, mas eu escrevo. Tenho o hábito de varrer a casa também, mas isso não faz de mim um faxineiro.&#8221; &#8220;Será que não?&#8221; &#8220;Não&#8221;, respondi seco. Minha tolerância para perguntas circulares nunca foi algo que eu usasse para definir como traço de personalidade num daqueles pingue pongues aos quais jornalistas pouco criativos submetem seus entrevistados em colunas de 1/4 de página de jornal. De repente, Alexia disse que havia terminado de ler o esboço que eu a enviara por e-mail. &#8220;O que você achou?&#8221; &#8220;Achei que você deveria colocar as vírgulas dentro das aspas.&#8221; &#8220;Nos diálogos?&#8221; &#8220;É. Acho estranho que você faça o contrário do que se faz.&#8221; &#8220;Que eu saiba não existe um padrão.&#8221; &#8220;Eu sei que é facultativo, mas a maioria coloca a vírgula dentro.&#8221; &#8220;Bom, eu vejo as aspas como demarcadores daquilo que foi realmente verbalizado e, nesse sentido, sendo a vírgula um elemento essencialmente não-fonético, acho que faz mais sentido colocá-la do lado de fora das aspas, pontuando uma pausa que nada tem a ver com o que foi dito pelo personagem&#8221;, respondi seguro. &#8220;E por que você coloca o ponto final dentro das aspas?&#8221; Confesso que nesse momento fui pego de surpresa. No entanto, simulando ter uma resposta pronta, disse rápido que era uma questão estética. Depois da sétima lata de cerveja, quis ir ao banheiro. No caminho cruzei com Eloísa, que conversava com Edivan e a esposa — uma mulher de meia-idade com próteses nos seios belíssimamente projetadas. Dei um beijo do pescoço de Eloísa, que retribuiu com um afago e virei à esquerda no fim do corredor. A porta do banheiro estava fechada. Supus que havia alguém lá dentro e esperei. Algo em torno de quatro a seis minutos se passaram e o usuário do ambiente íntimo ainda não havia dado fim aos seus afazeres fisiológicos; desse modo, presumi que o indivíduo estivesse defecando ou desmaiado. Com toda a impaciência que uma bexiga cheia pode provocar nos ânimos de um homem de boa índole, bati com força na porta do banheiro e perguntei se ia demorar. Ninguém respondeu. Logo atrás de mim havia um lance de escadas que levava ao segundo piso da casa, constituído, acredito, por três quartos e pelo menos dois banheiros vazios. Sei que nesses momentos a boa etiqueta orientaria o bom homem a não subir tais escadas, já que essa atitude poderia ser interpretada como invasiva pelo anfitrião. &#8220;Porra, eu já cedo a casa pra fazer a festa e ainda vem neguinho cagar no banheiro que eu e minha esposa tomamos banho todos os dias!&#8221;, esbravejaria com justiça qualquer um, embora o que eu queira fazer seja mijar, não cagar. Resolvi esperar mais um pouco e uns outros três ou quatro minutos se passaram. Desesperado por já não estar conseguindo mais segurar o vulcão em minhas calças, voltei para compartilhar meu sofrimento com Eloísa, mas ela não estava mais do outro lado do corredor. Através de uma das janelas, a vi do lado de fora da casa rindo de alguma coisa que provavelmente uma das sete pessoas ao seu redor havia acabado de contar. Se eu não estivesse com micro-jatos de urina sendo disparados pelo meu pênis, provavelmente ficaria curioso em saber o que era tão engraçado. Voltei para a frente do banheiro, que continuava ocupado. Senti meu corpo ficar dormente. Por um momento achei que a urina estivesse começando a sair por todos os poros do meu corpo. Fiquei enojado de mim mesmo e pus-me a subir as escadas. Sem conseguir coordenar qualquer tipo de pensamento elaborado, abri a primeira porta que vi assim que cheguei no segundo piso e fui tomado por uma cena que só consigo descrever hoje porque a dureza por trás da sua realidade parece ter desbotado com os anos. No quarto, que depois descobri ser a suíte em que Edivan dormia com sua esposa de meia-idade, vi duas figuras em cima da cama numa posição que, na época, considerei pouco usual. A amiga desconhecida de Alexia encontrava-se nua, deitada de frente para a porta e, por sua vez, Alexia, em pé na cama, também nua e com as pernas abertas em cima da amiga, desferia vigorosos jatos de urina em direção ao orifício que daria inicio ao aparelho digestivo da companheira. No impulso, mijei nas calças, pedi desculpa e fechei a porta. Da cozinha, liguei para Eloísa e disse que eu havia me urinado sem querer. Inicialmente ela riu, mas depois ficou nervosa porque tivemos que sair da festa, já que eu recusei a bermuda que Edivan propôs a me emprestar. Quando eu contei para Eloísa a bizarrice que havia presenciado, ela deu um sorriso de canto de boca e beijou meu pescoço. Temeroso, optei por nunca mais tocar no assunto. Terminei de escrever o livro e, de fato, nunca chegou a ser publicado já que mostrei-me irredutível às sugestões dos editores que implicavam com a maneira em que posiciono minha vírgula.</p>
<p><a class="a2a_dd addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save"><img src="http://www.bompraburro.com.br/wp-content/plugins/add-to-any/share_save_171_16.png" width="171" height="16" alt="Share/Bookmark"/></a> </p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.bompraburro.com.br/2009/10/da-boca-ao-reto/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>6</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Tela de prata</title>
		<link>http://www.bompraburro.com.br/2009/09/tela-de-prata/</link>
		<comments>http://www.bompraburro.com.br/2009/09/tela-de-prata/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 04 Sep 2009 18:26:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[traição]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.bompraburro.com.br/?p=72</guid>
		<description><![CDATA[Nos deitamos na rede e ficamos olhando as estrelas. Em muitos momentos da vida, nossos gestos não passam de imitações patéticas daquilo que assistimos no cinema ou na televisão. Gostamos de simular aquela realidade, de trazer um pouco de sonho para o que convencionamos chamar de mundo real. Foi por esse motivo, acredito, que nos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nos deitamos na rede e ficamos olhando as estrelas. Em muitos momentos da vida, nossos gestos não passam de imitações patéticas daquilo que assistimos no cinema ou na televisão. Gostamos de simular aquela realidade, de trazer um pouco de sonho para o que convencionamos chamar de mundo real. Foi por esse motivo, acredito, que nos deitamos na rede e ficamos olhando as estrelas naquela noite de primavera. Não falávamos nada um para o outro, embora pudéssemos simplesmente dizer algo como &#8220;Estamos fazendo igualzinho a como se faz no cinema&#8221;, e &#8220;É mesmo, pensei a mesma coisa&#8221;, responderia ela antes de me beijar com paixão. Mas não! Verbalizar essas coisas estraçalha o pacto silencioso de atuar fora do palco. O silêncio nesses casos — nesses momentos em que maquiamos nosso entorno de forma tão consciente — é o laço invisível que dá unidade à cena. Assim como os melhores atores mantêm-se impassíveis a quaisquer desordem fora da cena em que vivem naquele momento, devemos sempre observar as estrelas em silêncio. É lindo. &#8220;Eu passei a noite com Hélio ontem,&#8221; disse-me ela de súbito. Virei rápido, &#8220;Como assim?&#8221; &#8220;Fiz sexo com ele.&#8221; &#8220;Que caralho é isso?&#8221;, gritei empurrando-a. &#8220;Desculpa falar assim do nada. Achei que fosse melhor do que enrolar.&#8221; &#8220;Porra, é sério mesmo?&#8221; &#8220;Eu não brincaria com uma coisa dessa, mas fique calmo, eu explico.&#8221; &#8220;Explicar o que, cacete!?&#8221; Ela ficou calada. &#8220;Por quê?&#8221;, insisti. &#8220;Por que, o quê?&#8221; &#8220;A gente tinha acabado de voltar, eu não mereço isso.&#8221; &#8220;Não é questão de merecer, Sávio. Eu errei. Sei disso. Mas seu irmão errou também.&#8221; &#8220;Piranha!&#8221; Ela não respondeu. Fiquei sem saber o que pensar direito. Pipocou-me na cabeça um desejo incontrolável de quebrar pratos e chorar. Coloquei a mão no rosto como se segurasse a parte superior do nariz: o polegar no canto externo do olho esquerdo e o dedo indicador no outro, e último, olho. &#8220;Vagabunda do cacete!&#8221;, gritei mais forte e projetando a mão em sua direção como se meus dedos pudessem desferir adagas venenosas contra a sua jugular. &#8220;Não precisa exagerar,&#8221; ela teve a coragem de dizer. &#8220;Exagerar?, exagerar?, porra! Enlouqueceu? Você tinha jurado que não ia mais me enganar.&#8221; &#8220;Eu não te enganei, Sávio. Estou cumprindo minha promessa. Contei tudo pra você. Só não contei antes por falta de oportunidade.&#8221; &#8220;Oportunidade pra trepar com ele você teve, né?&#8221; Ela fez uma cara de lá-vamos-nós-de-novo e voltou para a rede. Discutimos por duas horas e quarenta. Ela sabia que não havia nenhuma desculpa respeitável para o que fizera na noite anterior, mas mostrou-se verdadeiramente arrependida. Pude ter certeza disso quando ela chorou. Cheguei a sentir uma quantidade razoável de lágrimas pingar na minha perna. Nos abraçamos e como bom cristão concedi-lhe pela terceira vez a graça do perdão. Amores verdadeiros não devem acabar assim, sob esse belíssimo teto estrelado que, novamente, se exibe para nós. Como nos filmes.</p>
<p><a class="a2a_dd addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save"><img src="http://www.bompraburro.com.br/wp-content/plugins/add-to-any/share_save_171_16.png" width="171" height="16" alt="Share/Bookmark"/></a> </p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.bompraburro.com.br/2009/09/tela-de-prata/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Morta de maçã</title>
		<link>http://www.bompraburro.com.br/2009/09/morta-de-maca/</link>
		<comments>http://www.bompraburro.com.br/2009/09/morta-de-maca/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 03 Sep 2009 13:00:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[morta]]></category>
		<category><![CDATA[motel]]></category>
		<category><![CDATA[torta]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.bompraburro.com.br/?p=68</guid>
		<description><![CDATA[&#8220;Selma?&#8221; &#8220;Oi.&#8221; &#8220;Dalber acabou de me telefonar para dizer que está num motel com uma puta torta.&#8221; &#8220;Como é?&#8221; &#8220;Também não entendi direito, ele estava muito agoniado.&#8221; Selma se levantou rápido. &#8220;Mas o que você disse? Dalber num motel?&#8221; &#8220;É.&#8221; &#8220;E Marta?&#8221; &#8220;Pelo que entendi, não.&#8221; &#8220;Não o quê?&#8221; &#8220;Ela não estava lá.&#8221; &#8220;E que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Selma?&#8221; &#8220;Oi.&#8221; &#8220;Dalber acabou de me telefonar para dizer que está num motel com uma puta torta.&#8221; &#8220;Como é?&#8221; &#8220;Também não entendi direito, ele estava muito agoniado.&#8221; Selma se levantou rápido. &#8220;Mas o que você disse? Dalber num motel?&#8221; &#8220;É.&#8221; &#8220;E Marta?&#8221; &#8220;Pelo que entendi, não.&#8221; &#8220;Não o quê?&#8221; &#8220;Ela não estava lá.&#8221; &#8220;E que diabos Dalber estava fazendo num motel.&#8221; &#8220;Pô, o que você acha?&#8221;, eu disse pegando a chave do carro. &#8220;Caralho, você sabia de alguma coisa?&#8221; &#8220;Não.&#8221; &#8220;Pra onde você tá indo?&#8221; &#8220;O cara acabou de me ligar, tenho que ir lá.&#8221; &#8220;Pera, pra onde?&#8221; &#8220;Pro motel, pô! Ele tá desesperado.&#8221; &#8220;O que você vai fazer lá?&#8221; &#8220;Não sei ainda, mas não posso deixar ele na mão!&#8221; &#8220;Na mão? Ele tá lá com uma mulher. Pra quê ele precisa de você?&#8221; &#8220;Como assim? Se fosse você na situação dele, ia querer que eu fosse!&#8221; &#8220;Espera!&#8221; &#8220;O que foi, Selma? Diz!&#8221; &#8220;Merda, do nada Dalber liga pra você pedindo pra dar um pulo no motel e você vai?&#8221; Fiquei quieto por uns segundos, respirei fundo e disse &#8220;Você tá doida? Nosso amigo tá com um cadáver num quarto de motel e você fica aí reclamando porque eu estou indo ajudar o cara?&#8221; &#8220;Cadáver?&#8221; &#8220;Você tá surda?&#8221; &#8220;Que história é essa de cadáver?&#8221; &#8220;Porra, eu disse que Dalber acabou de me telefonar dizendo que está com uma puta morta num motel!&#8221; &#8220;Você não tinha dito isso&#8230;&#8221; &#8220;Claro que disse!&#8221; &#8220;Mas você disse puta torta.&#8221; &#8220;Torta?&#8221; &#8220;Torta.&#8221; &#8220;Você tá louca! Eu disse morta.&#8221; &#8220;Claro que não, eu ouvi bem: &#8216;puta torta&#8217;.&#8221; &#8220;E que porra seria uma puta torta, Selma?&#8221; &#8220;E eu sei&#8230; achei estranho na hora, mas presumi que era uma mulher feia.&#8221; &#8220;Do nada.&#8221; &#8220;Do nada, não. Uma pessoa torta é uma pessoa feia.&#8221; &#8220;A grande maioria das pessoas não são simétricas, Selma. Olhe pro seu próprio nariz antes de falar dos outros.&#8221; &#8220;Que porra tem meu nariz?&#8221; &#8220;Nada, Selma.&#8221; &#8220;Como assim, nada?&#8221; &#8220;Tô indo lá.&#8221; &#8220;Pera! Que história é essa de falar que meu nariz é torto agora?&#8221; Bati a porta na cara dela. Por pouco não acertei o nariz.</p>
<p><a class="a2a_dd addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save"><img src="http://www.bompraburro.com.br/wp-content/plugins/add-to-any/share_save_171_16.png" width="171" height="16" alt="Share/Bookmark"/></a> </p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.bompraburro.com.br/2009/09/morta-de-maca/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>5</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Testículos de bode e putas asiáticas</title>
		<link>http://www.bompraburro.com.br/2009/08/testiculos-de-bode-e-putas-asiaticas/</link>
		<comments>http://www.bompraburro.com.br/2009/08/testiculos-de-bode-e-putas-asiaticas/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 27 Aug 2009 13:00:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[bodes]]></category>
		<category><![CDATA[ciúme]]></category>
		<category><![CDATA[fisiculturismo]]></category>
		<category><![CDATA[putas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.bompraburro.com.br/?p=64</guid>
		<description><![CDATA[&#8220;Foi normal, nada demais&#8221;, ele respondeu. Eu havia lhe perguntado quais foram suas impressões a respeito do seu primeiro dia de malhação numa simpática academia que abrira há seis meses na rua de trás. &#8220;Conheceu alguém interessante?&#8221;, perguntei tentando esconder a insegurança. &#8220;Tinha um rapaz lá muito boa gente.&#8221; Aliviada por seu interesse não ter [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Foi normal, nada demais&#8221;, ele respondeu. Eu havia lhe perguntado quais foram suas impressões a respeito do seu primeiro dia de malhação numa simpática academia que abrira há seis meses na rua de trás. &#8220;Conheceu alguém interessante?&#8221;, perguntei tentando esconder a insegurança. &#8220;Tinha um rapaz lá muito boa gente.&#8221; Aliviada por seu interesse não ter sido investido em alguém do sexo oposto, continuei: &#8220;Será que eu conheço?&#8221; A pergunta fazia sentido já que, conforme dei a entender no início do parágrafo, a academia localiza-se bem perto de onde moramos. &#8220;Talvez, é um bem grandão. Ele é profissional.&#8221; Pensei um pouco e não pude lembrar de ninguém, &#8220;Halterofilista?&#8221; &#8220;Isso.&#8221; &#8220;Hum, não conheço. Deve morar em outro bairro.&#8221; &#8220;Ele vai participar do seu primeiro campeonato profissional em Agosto.&#8221; &#8220;Não acho bonito esses homens muito musculosos.&#8221; &#8220;A questão não é essa, o legal é a determinação por trás dos músculos.&#8221; &#8220;Nem venha querer ficar grandão assim.&#8221; &#8220;Tá maluca?, mal tenho coragem de malhar pra perder peso, imagine então pra ficar do tamanho de Hermes&#8221;, ele disse me passando a panela molhada. Puxei o pano de prato e pus-me a enxugá-la. &#8220;O que leva alguém a querer ficar tão musculoso nos dias de hoje em que esforço físico é a menor das nossas demandas?&#8221; &#8220;Além de querer se enquadrar num padrão de beleza pré-estabelecido?&#8221; &#8220;É, além disso.&#8221; &#8220;No caso de Hermes foi uma promessa.&#8221; &#8220;Promessa?&#8221;, virei interessada. &#8220;Ele prometeu para o pai no seu leito de morte&#8221;, disse enquanto passava a esponja na frigideira enegrecida de ovo. &#8220;Prometeu que ia ser halterofilista?&#8221; &#8220;É.&#8221; &#8220;Sério?&#8221; &#8220;Sério.&#8221; &#8220;Do nada?&#8221; &#8220;O mais engraçado é que foi do nada mesmo. O pai dele nunca, em momento nenhum da vida, expressou qualquer indício de que apreciasse esse negócio de culto ao corpo.&#8221; &#8220;E perto da morte ele pediu para que o filho fosse halterofilista?&#8221; Ele me passou a frigideira, &#8220;Na verdade ele disse fisiculturista, parece que tem uma diferença. Foram as últimas palavras dele.&#8221; &#8220;Será que esse Hermes não pensou na possibilidade do pai estar delirando nos seus momentos finais?&#8221; &#8220;Ah, deve ter pensando&#8230; mas quando se trata das últimas palavras do seu pai a gente não pode se sustentar em conjecturas.&#8221; Enxuguei dois copos, virei sorrindo e perguntei, &#8220;Então, se tivesse sido seu pai, você faria a mesma coisa?&#8221; &#8220;Sem sombra de dúvida.&#8221; Fiquei calada por uns instantes. É engraçado como a morte ou a proximidade dela nos confere um poder quase divino sobre os outros. Quando somos atores ativos conseguimos o que queremos de quem quer que seja por via do medo da própria morte; quando somos atores passivos o poder se estende por aqueles nos ama e pelos que sentem compaixão por via da pena e da nossa capacidade de nos projetarmos no outro. &#8220;Isso pode ser ruim pra você, Glauber.&#8221; &#8220;O quê?&#8221; &#8220;Pensar assim.&#8221; &#8220;Assim como?&#8221; &#8220;Assim. Nesse negócio de achar que devemos fazer tudo o que nos pedem os entes queridos em seus leitos de morte.&#8221; &#8220;Eu acho que isso é uma forma de conceder ao moribundo um último desejo; e que seja algo significativo, então.&#8221; &#8220;Pois é, e você acha que ser halterofilista é significativo?&#8221; &#8220;Ah, mas quem somos nós pra julgar isso?&#8221; Senti uma coceira de irritação na garganta. &#8220;Se, em seu leito de morte, seu pai pedisse que você me deixasse, você faria isso?&#8221; Ele nem olhou pra mim. &#8220;Não seja ridícula, meu pai te adora.&#8221; &#8220;Do mesmo modo que o pai de Hermes mal sabia o que era halterofilismo.&#8221; &#8220;Fisiculturismo.&#8221; &#8220;Que seja. Me responda.&#8221; &#8220;Não quero responder isso, Helen. Que coisa boba.&#8221; &#8220;Boba vírgula. A resposta para essa pergunta tem o papel de sustentar, ou não, os alicerces do nosso relacionamento.&#8221; &#8220;Cacete, você vai longe, hein?&#8221; &#8220;Não fuja da resposta, Glauber.&#8221; &#8220;Tá, pô. Eu te deixaria, pronto, satisfeita?&#8221; &#8220;Como é? Você me deixaria se seu pai pedisse isso no leito de morte dele?&#8221; &#8220;Deixaria. Que besteira.&#8221; &#8220;Glauber, não me tire do sério! Quer dizer que se seu pai pedisse para você fazer sexo com nove prostitutas asiáticas ao mesmo tempo você faria?&#8221; &#8220;Se ele estivesse morrendo?&#8221; &#8220;Claro, a conversa toda é sobre isso!&#8221; &#8220;Nove é muito, não sei se agüentaria&#8221;, o filho da puta respondeu rindo. &#8220;Viado do caralho!&#8221;, gritei atirando o copo contra o chão. &#8220;Helen! Que é isso? Calma!&#8221; &#8220;Calma uma porra, viado! Quer dizer que se seu pai pedisse pra você chupar os testículos de dois bodes ao mesmo tempo, você chuparia?&#8221; &#8220;Você pirou.&#8221; &#8220;Você preferia as nove putas asiáticas ou os ovos dos bodes?&#8221; &#8220;As nove putas, eu acho&#8230;&#8221; &#8220;Safado!&#8221; &#8220;Calma.&#8221; Depois da briga fui para a casa da minha mãe. Dormi por quatro dias lá. Glauber não telefonou uma única vez. Quando voltei ele não estava em casa, mas os vizinhos avisaram que ele teve que fazer uma viagem urgente para o interior; disseram que o pai dele estava muito mal e sua mãe havia telefonado pedindo que ele fosse ver o pai antes que o pior acontecesse. Rezei para que o velho morresse antes que pudesse falar com o filho.</p>
<p><a class="a2a_dd addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save"><img src="http://www.bompraburro.com.br/wp-content/plugins/add-to-any/share_save_171_16.png" width="171" height="16" alt="Share/Bookmark"/></a> </p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.bompraburro.com.br/2009/08/testiculos-de-bode-e-putas-asiaticas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>4</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O pênis arrancado</title>
		<link>http://www.bompraburro.com.br/2009/08/o-penis-arrancado/</link>
		<comments>http://www.bompraburro.com.br/2009/08/o-penis-arrancado/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2009 00:13:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[narrativa]]></category>
		<category><![CDATA[pênis]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.bompraburro.com.br/?p=9</guid>
		<description><![CDATA[&#8220;E ela topou?&#8221; &#8220;Claro, porra,&#8221; ele respondeu, &#8220;depois do chega pra lá não tinha como não ir.&#8221; &#8220;E aí?&#8221; &#8220;Cara, na verdade eu só sei o que me contaram.&#8221; Essa era sua forma de dizer que provavelmente os eventos que narraria dali em diante não fariam eco ao que de fato ocorrera, se é que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;E ela topou?&#8221; &#8220;Claro, porra,&#8221; ele respondeu, &#8220;depois do chega pra lá não tinha como não ir.&#8221; &#8220;E aí?&#8221; &#8220;Cara, na verdade eu só sei o que me contaram.&#8221; Essa era sua forma de dizer que provavelmente os eventos que narraria dali em diante não fariam eco ao que de fato ocorrera, se é que qualquer coisa ocorrera&#8230; Não, pensando melhor, deve ter ocorrido sim. Histórias (e aqui faço uso da grafia iniciada com h a fim de reforçar minha noção de que história é sempre história) como essa que ele vai me contar daqui a algumas linhas dificilmente se originam por completo do pulsar criativo de alguém; são por demais &lt; <a title="Sugira seu adjetivo" href="http://www.bompraburro.com.br/2009/08/o-penis-arrancado/#comments" target="_self">sugerir adjetivo inopinado aqui</a> &gt;  para não terem acontecido de verdade. &#8220;E o que foi que te contaram?&#8221;, insisti. &#8220;Bom, eles entraram no carro em direção ao motel.&#8221; &#8220;Qual?&#8221; &#8220;Aquele perto da saída do escritório.&#8221; &#8220;O Nosso Prazer?&#8221; &#8220;Deve ser.&#8221; &#8220;Acho que sim, cara, é o único por ali.&#8221; &#8220;Que eu saiba tem um outro se você descer a ladeira e pegar a direita.&#8221; &#8220;Tem?&#8221; &#8220;Pra mim, sim.&#8221; &#8220;Acho que ali é um puteiro.&#8221; &#8220;Tanto faz.&#8221; &#8220;Tanto faz? Leva sua mulher pro puteiro então e diz pra ela que tanto faz.&#8221; &#8220;Sifudê, porra.&#8221; &#8220;Mas não tanto faz?&#8221; &#8220;Tanto faz pra história!&#8221; &#8220;Sim, diz logo, foram pro motel?&#8221; &#8220;Eles nem chegaram a entrar.&#8221; &#8220;Não?&#8221; &#8220;Claro que não, a merda foi antes.&#8221; &#8220;Pensei que tivesse sido depois.&#8221; &#8220;Pelo que disseram, quando eles estavam no caminho ele  abriu o zíper e pediu pra ela—pera, preciso atender.&#8221; Era o celular dele tocando. &#8220;Alô,&#8221; ele disse. &#8220;Oi, tô trabalhando. Pois é. Não. Não. Certo. Tô ocupado, porra, cheio de merda pra fazer. Certo. Cacete. Falou. Outro.&#8221; &#8220;Quem era?&#8221; &#8220;Um fela da puta da ouvidoria.&#8221; &#8220;Sei.&#8221; &#8220;Agora vou ter que passar no cartório antes das três.&#8221; Ele pegou um papel da mesa ao lado e guardou numa pasta amarela. &#8220;Sim, mas diz aí.&#8221; &#8220;Ah, é. Bom, aí você sabe. Ela colocou a boca lá e mandou ver.&#8221; &#8220;Ela já estava afim, então.&#8221; &#8220;É possível.&#8221; &#8220;Possível? É claro que estava, não fez nenhum cu doce nem nada.&#8221; &#8220;Cu doce é para os fracos.&#8221; Nesse momento peguei um post-it rosa choque. &#8220;O que foi?&#8221;, ele perguntou. Não respondi. Só anotei que cu doce era para os fracos para depois lembrar de colocar como mensagem pessoal no Live Messenger. &#8220;E a batida?&#8221;, perguntei. &#8220;Taí a merda. A batida foi quando ela estava com a boca lá e na hora do impacto ela fechou a boca com tudo.&#8221; &#8220;Caralho! Deve ter—&#8221; &#8220;Pois é, é por isso que não estão deixando ele receber visita.&#8221; &#8220;Entendi. Bom, vai lá no cartório, então. Vou ver se baixo o episódio de ontem de Gray&#8217;s Anatomy.&#8221; &#8220;Falou.&#8221; &#8220;Falou.&#8221;</p>
<p><a class="a2a_dd addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save"><img src="http://www.bompraburro.com.br/wp-content/plugins/add-to-any/share_save_171_16.png" width="171" height="16" alt="Share/Bookmark"/></a> </p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.bompraburro.com.br/2009/08/o-penis-arrancado/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>5</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
