O câncer dos outros

“Por exemplo”, respondi, “ontem mesmo eu estava lendo um conto de Arthur Bradford sobre um cara que só notou no segundo encontro que a sua atual ficante não tinha um dos braços.” No entanto, Elisa já não me ouvia mais e só chorava. No dia anterior tivemos uma conversa séria depois do jantar com os pais dela onde me foi revelado que a doença que a afligia era câncer. Hoje tomei café e quando Elisa mencionou o câncer, fiquei extremamente surpreso. Foi uma surpresa genuína, como se ela realmente não tivesse me contado sobre seu estado no dia anterior. Não sei o que deu em mim, eu simplesmente havia esquecido da conversa, do sofrimento, do câncer. Agora Elisa acha que eu nunca presto atenção no que ela diz. “Não exagere”, pedi, “foi um lapso, acabei de acordar.” “Não se tem lapsos com esse tipo de coisa, Pacífico, você simplesmente provou que está cagando toneladas para mim, fica cada vez mais claro que a única coisa que importa na sua vida é você mesmo.” Não posso deixar de admitir que parte dessa assertiva estava absolutamente correta. No caso, a parte em que sou acusado de me sentir o centro do universo. Por exemplo, uma vez li num blog que a diferença entre uma pessoa egocêntrica e uma idiota é que o egocêntrico acha que o mundo gira ao seu redor e o idiota acha que as outras pessoas pensam o mesmo. Nesse sentido, não sou idiota, pois permito pacificamente que as pessoas tenham suas crenças, por mais risíveis que sejam. “É melhor eu ir”, por fim, ela disse. Resolvi não impedir. Mais tarde senti fome e achei que seria uma boa idéia jantar na casa de Elisa. Quando bati na porta demoraram para abrir e, mesmo assim, quando abriram foi pela metade. “O que houve?”, perguntei para a minha sogra, que olhava pelo vão entreaberto. “Pacífico, é melhor você ir.” “Fala sério que ela ainda está com raiva.” “Não é isso, Pacífico, é melhor mesmo que você vá embora.” “Assim do nada?” Então ouvi o pai de Elisa gritar para esposa algo tipo “Peloamordedeusmulhervenhameajudar!” “O Seu Pedro está bem?” “Vai embora, Pacífico!”, ela disse enquanto batia a porta. Puxei o celular e liguei para Elisa. Tocou e até deu pra ouvir o toque vindo do lado de dentro da casa. Ninguém atendeu. Encostei o ouvido na porta e pude ouvir o pai de Elisa falando alto e voz da sua mãe numa espécie de clamor. Me pareceu claro que se tratava de uma crise familiar. Talvez descobriram que Elisa estava trocando uns carinhos íntimos com a empregada. Quando Elisa me contou isso nem fiquei brabo. Tem coisas que devemos simplesmente ver pelo lado positivo. Por exemplo, certa vez li um artigo numa revista de sala de espera de dentista que dizia que a porcentagem de mulheres que chegam ao orgasmo se relacionando com outras mulheres é muito maior que a porcentagem de mulheres que gozam com homens — em números relativos, claro. Saber de Elisa e Madalena tirou uma grande responsabilidade das minhas costas. Havia também a possibilidade dos pais dela terem achado os baseados e as 30 gramas de cocaina que trouxemos da última viagem que fizemos para o litoral. Nesse caso, acho que Seu Pedro e Dona Clara tem mais é que dar uns tapas na filha mesmo. E com gosto. Daqueles que deixam a vítima desorientada. Porra burra não esconder o bagulho direito. Se um dia eu achasse maconha e cocaina nas coisas do meu filho, eu levaria ele pra delegacia — mesmo se eu fosse viciado nessas mesmas substâncias. Posso ser drogado, mas pelo menos cumpriria a função de pai. Resolvi bater na porta de novo. Ninguém atendeu. Experimentei abrir e vi que Dona Clara esquecera de tranca-la. Bom pra mim, pensei enquanto entrava. Lá dentro me dei conta que meu sogro havia parado de falar alto, mas pude ouvir a mãe de Elisa rezando. A voz vinha do corredor. “Dona Clara, por deus, o que houve, diabos?” Ela, sentada na frente da porta fechada do quarto de Elisa, só rezava e chorava. Pude ver também que um cabo de madeira (provavelmente de vassoura) estava encaixado entre a parede do corredor e a porta do quarto de Elisa, impedindo que esta fosse aberta. Da outra extremidade vi meu sogro se aproximando com uma chave-inglesa em uma das mãos e na outra não havia nada, já que a mão não estava lá. “Porra, o que aconteceu aqui?”, gritei, “Cadê sua mão, caralho?” “Vá embora, Pacífico!” “Vou ligar pra polícia”, eu disse puxando o celular, mas Seu Pedro deu um golpe na minha mão e disse que não! e que se eu fizesse isso iam levar Elisa embora. Enquanto ele falava, de repente achei que as coisas ficaram em silêncio. “Veja”, disse Dona Clara, “ela parou de arranhar a porta.” Assim que ela terminou a frase, ouvimos um estrondo seguido de um som de vidro quebrando. “Ela pulou pela janela!”, gritou meu sogro puxando a madeira que segurava a porta. O peso da minha sogra fez com que a porta abrisse. No quarto, a primeira coisa que vi foi o corpo de Madalena banhado de sangue. A janela, por sua vez, realmente havia sido arrombada. Ouvimos um grunhido. Nós três olhamos para trás ao mesmo tempo. Era Elisa — mas parecia mais um bolo fecal fantasiado de Elisa. “Ela arrudiou a casa”, disse Seu Pedro como numa epifania. “Elisa, o que houve?”, eu perguntei, mas a criatura não respondeu, ela simplesmente pulou em cima da minha sogra. Seu Pedro tentou segura-la, mas foi arremessado contra o armário e lá ficou desacordado. Eu preferi não impedir Elisa e esperei. Quando ela se levantou, parte do corpo de Dona Clara já não estava mais lá. Eu sabia que agora era a minha vez e simplesmente fechei os olhos. Aí, mesmo com os olhos fechados, vi que uma luz forte surgira. Era uma luz roxa. Fui abrindo os olhos e vi Elisa olhando fixamente para essa luz que vinha do alto, fora da janela. De repente, uma voz bem grave disse “Calma, meu amor, está tudo bem, respire fundo e pense no mar, tente sentir o cheiro daquela colônia que você gosta, fique em paz, feche os olhos e aproveite.” Aí Elisa começou a flutuar em direção à luz roxa e à voz que foi lentamente se afastando enquanto solfejava uma melodia em ré menor — e eu sei que era em ré menor porque toco violão. Em pouco tempo a luz se apagou. Eu estava tão sobrecarregado com os últimos acontecimentos, que havia esquecido do motivo principal que me levou à casa de Elisa: a fome. Fui até a cozinha, abri um pacote de Passatempo, telefonei pra polícia e enquanto os policiais não chegavam, fiquei tomando Coca Zero e tentando pensar em como eu explicaria o ocorrido para as autoridades. Da cozinha, pude ver que Seu Pedro estava acordando no quarto e, de relance, vi que a calcinha que Madalena estava usando quando foi atacada era branca e com uma ilustração do Bob Esponja. Tive uma pequena ereção, mas tentei desviar o pensamento. Estar com o pênis ereto quando a polícia chegasse só ia complicar as coisas.

This entry was posted in Microconto and tagged , , , . Bookmark the permalink.

3 Responses to O câncer dos outros

  1. Kelma says:

    Caraca… às vezes eu tenho medo da sua imaginação!

  2. Ana Maria says:

    Isso é que é imaginaçao. Maravilhosa, onde mostra a simplicidade de uma pessoa normal, morando ao lado, bem ao lado da fantasia. Valeu.

  3. Koehler says:

    onde, diabos, estava a mão de Seu Pedro? (… e como foi parar lá?)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>