Nas entrelinhas

“Um Cavaleiro Mascarado sem tomate e com muita maionese.” “E pra beber?” “Coca Zero.” Quando a garçonete saiu, cheguei mais perto. “Você viu que quando nós chegamos tinha uma pessoa na máquina de tickets do estacionamento?” “Vi”, ela respondeu colocando parte do cabelo para trás da orelha enquanto mexia em alguma coisa na bolsa. “Fico puto com isso.” “Isso o quê?” “Essas pessoas que ficam ajudando a tirar o ticket da máquina. Simplesmente não faz sentido. Pense comigo. Se os donos do shopping fazem uma reunião de doze horas sobre como cortar os custos do estabelecimento e decidem colocar umas máquinas de ticket de estacionamento exatamente para não ter que pagar alguém para ficar numa cabine anotando placas e entregando recibos enquanto assiste reprise de novela numa televisãozinha de quatro polegadas em preto e branco, por que diabos pagariam um intermediário entre a máquina e o motorista?” “A máquina podia estar quebrada”, ela disse com desdém. “Não pareceu quebrada pra mim. O cara foi lá, apertou o botão, pegou o ticket e me entregou. Eu mesmo poderia ter feito isso, entende? Me senti roubado.” “Tá doido, o cara tava só sendo gentil.” “Gentil? Faz-me rir, Gabriela.” “Caralho, você sabe que eu fico puta quando você usa ênclise!”, ela disse apontando. “Gabi, não precisamos brigar por isso, mas fica parecendo que você está discordando de mim só por discordar.” “Você está se apegando a algo que não lhe diz respeito.” “Não? Era o meu dedo que deveria ter apertado aquele botão. Se na saída tiver alguém—” “Oi”, disse Samuel que acabara de chegar com Ayala — a razão pela qual tivemos que vir ao shopping. “Essa daqui é a Ayala.” “Oi, Ayala”, eu disse. “Prazer, sou Gabriela.” “Prazer”, Ayala respondeu. Então, a econômica e precisa escolha de palavras de Ayala fez com que eu refletisse sobre a quem estas foram direcionadas, e o resultado dessa reflexão (ainda que parcial) me causou um princípio de cólera, já que pareceu-me claro que Ayala, aquela que revelarei nas próximas linhas ser a noiva de Samuel, dirigia-se unicamente à Gabriela, o que indicaria uma clara antipatia por mim, afinal, aos meus ouvidos ela dissera exatamente o seguinte: “Boa tarde, Gabriela, é um enorme prazer conhecer-te, o Samuel falou muito bem de ti, histórias cheias de deleite, e não sei se estás a notar, mas conscientemente ignoro a presença pútrida dessa asquerosa figura ao seu lado cujo nome faço questão de não recordar.” Desde cedo aprendi que temos que ler as entrelinhas, era assim que minha mãe dizia, filho, ela repetia, as pessoas nunca dizem as coisas por completo, mas pela metade, e mais da metade do prazer de dialogar com as pessoas é tentar adivinhar o que elas estão querendo dizer de verdade. Obrigado, mãe! Então Samuel puxou a cadeira para Ayala sentar, ela sentou e só depois ele o fez. Gabriela olhou para mim com um meio-olhar, o que significa que ela disse exatamente assim: “Quem dera que você fosse um companheiro gentil o suficiente para me puxar a cadeira mesmo numa lanchonete de quinta categoria como essa que você insiste em me trazer, nojento.” Engoli seco e me curvei até o encosto da cadeira a fim de manter uma distância segura naquele ambiente hostil. “E aí, vamos pedir o quê?” “Na verdade, já pedimos.” “Já?”, repondeu Samuel. “É que vocês acabaram demorando”, disse Gabriela. “Certo”, Samuel disse puxando o cardápio. Ayala não esboçou nenhum tipo de reação, como se esperasse que Samuel escolhesse a comida por ela, mas aí Samuel entregou-lhe o cardápio e disse que hoje ela escolheria. Ayala olhou para o livreto por alguns segundos, uns doze ou treze, e disse “Esse.” A garçonete, que já estava ali novamente, quis confirmar, “Dois Cavaleiros Mascarados?” “Isso.” “E pra beber?” “Água mineral.” “Duas?” “Isso.” A garçonete saiu e eu não me contive: “Quando vocês chegaram havia alguém ajudando a entregar os tickets de estacionamento?” “Não lembro.” “Não lembra?” “Não…”, ele respondeu virando para Ayala como se perguntasse se ela conseguia lembrar de algo. É claro que ela conseguia, mas diante do asco que sentia por mim, jamais responderia. Portanto, calou-se. “Pô, você acabou de chegar”, eu disse. “Mas é que nós viemos de ônibus.” “Sei, mas não viu nada?” “Para com isso…”, disse Gabriela tentando ser delicada. Nesse mesmo momento a garçonete chegou com os nossos pedidos. Na verdade, só o meu e o de Gabriela. Quando a funcionária do recinto colocou-os sobre a mesa, fui desembrulhar o meu Ancião Necromancer sem picles, mas Gabriela inventou de dizer “Vamos esperar o deles chegarem.” “Não precisa”, respondeu Samuel com toda a razão do mundo. “Precisa?”, perguntei para Gabriela. “Precisa.” A palavra saiu tão compacta que achei mais seguro esperar mesmo a contragosto. “Ayala”, disse Samuel, “mostra aí pra eles.” Ela sorriu e levantou uma das mãos. Por um instante achei que ela fosse me dar dedo e mandar eu me foder, mas aí Gabriela soltou um gritinho do meu lado, meu coração acelerou de susto e Samuel disse “Estamos noivos!” Gabriela ficou muito, muito, muito feliz com a novidade, fez questão de se levantar, abraçar os dois e insistiu que eu fizesse o mesmo. E eu insisti que não precisava e dei dois tapinhas nas costas de Samuel. Eles passaram uns quatro minutos conversando sobre como o pedido foi feito até que, finalmente, vi a garçonete se aproximando com o lanche dos dois. No entanto, nesse mesmo momento, Ayala diz que precisa ir ali rapidinho, se levanta, passa pela garçonete e entra no corredor que leva ao banheiro. Quando a garçonete deixou o sanduíche deles na mesa, segurei meu Ancião Necromancer e dei um gole na Coca Zero. “Pô, espera ela chegar do banheiro!” “Mas por quê? O lanche deles já está aqui.” Samuel, conciliador como sempre, disse, “Podem comer, sério mesmo, eu espero.” “Tá vendo?”, eu disse, “Ele espera.” “Caralho, deixa de ser mal educado e espera a menina chegar… se fosse o contrário ela esperaria!” Então senti a cólera. Foi muito rápido. Como um ácido que corrói de dentro pra fora, respondi: “Foda-se, porra! Esperaria o cacete! Até parece que você não notou que ela planejou esse circo! A garota chega aqui, não me cumprimenta, fica me olhando com nojo e deve me achar um retardado infeliz que se masturba todos os dias olhando catálogos de lingerie da Duloren; certamente estamos lidando com alguém que seria capaz de tirar minha vida se tivesse alguma arma em punho; alguém que finge não lembrar do filho da puta da máquina de tickets e decide, convenientemente, ir ao banheiro assim que vê a garçonete se aproximando com a comida! Como é que essa víbora cuja pátria-mãe é o quinto dos infernos faria o mesmo por mim? Como?” Gabriela parecia não estar esperando uma reação desse tipo e, como se as palavras estivessem entaladas em sua garganta, ficou calada. Samuel simplesmente levantou-se, no caminho encontrou Ayala voltando do banheiro, segurou-a pelo braço e saiu da lanchonete. Virei para Gabriela e perguntei, “Posso comer meu Ancião Necromancer em paz agora?” Gabriela acenou que sim, desembrulhou seu Cavaleiro Mascarado, fez cara feia, levantou o braço, a garçonete se aproximou e ela disse, “Veio com tomate, porra.”

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3 Responses to Nas entrelinhas

  1. Alex Santanna says:

    Muito bom!!! Gostei mesmo!!

  2. Mirella says:

    Perfeito, Bruno!
    A cada post que leio acho esse blog ainda mais bacana.

    (Eu também sempre fico buscando aquilo que é dito nas entrelinhas…)

    beijo

  3. Alexandra says:

    kkkkkkkkkkkkkkkk Muito sincero! “…certamente seria capaz de tirar minha vida se tivesse uma arma em punho…” Consegui visualizar nitidamente a atitude de Ayala diante do rapaz que adora as entrelinhas…

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