Medo, meda e zumbis

Hoje é chique ter medo. Para ser mais preciso, é essencialmente classe-média. Ter medo é reforçar a presença do inimigo, seja este um político liberal, um preto pobre que cruza a rua ou um novo vírus cujo único remédio eficaz é encontrado exclusivamente em hospitais públicos. Hoje, medo é combustível; dá um propósito, uma direção à vida das pessoas. Sem medo, imagine só, o que fariam? Ó liberdade lancinante que ninguém quer é essa a de ser invulnerável ao medo. Sim, o medo vicia. Uniformiza. Acomoda. E as pessoas têm medo de tudo. De um lado, é medo de errar, de ser tolo, de envergonhar-se; do outro, é medo de ser roubado, estuprado e queimado vivo na viela de um bairro pobre, onde estão eles, os inimigos. É tanto medo que o próprio significado que preenche a palavra medo se esvaziou. Hoje, há quem tenha medo como se respira. Virou parte do que a pessoa é. E é aí que complica, se as pessoas viraram medo e o medo pôs-se a ser as pessoas, onde fica aquele medo inocente, aquele que não é vício, o medo do filme de monstro, o medo da altura, por exemplo? Esse já não é mais medo, é outra coisa. O genitor da palavra, Medus — filho de Ares e Afrodite e irmão de Terror —, partiu-se em dois. Um é o Medus médio, covarde e que ainda atende pelo nome de medo; o outro é o Medus duplicado, pulsante, real, é o meda.

O meda é o que sobrou de digno do medo. É o meda que devemos levar no bolso para onde quer que vamos. É ele que nos faz discernir a diferença entre passear de trem-fantasma e jogar-se do quinto andar. O medo, por sua vez, só merece desprezo. Na maioria absoluta dos casos, o medo é maior que o perigo que lhe motiva a existência. Na prática, a sensação de insegurança sempre é maior que a violência em si. É mais inteligente sentir meda de zumbi que medo de ser roubado, pois é o medo que, de fato, lhe come o cérebro. Minha mãe costuma dizer que minha avó costumava dizer que quem tem medo se enterra vivo. Mas agora que o medo virou ópio e o meda uma fagulha da razão, vou além e afirmo: Quem tem medo se enterra vivo e quem tem meda pega uma doze de cano curto e abre caminho na maré de mortos-vivos até a cidade mais próxima.

This entry was posted in Tese and tagged , , . Bookmark the permalink.

4 Responses to Medo, meda e zumbis

  1. Ana Maria says:

    Perfeito, perfeito. Pra que ter medo, se o fato de sentirmos medo não vai impedir que as coisas aconteçam, é perder muito tempo com medo. Sabe qual é meu maior medo? de BARATA, medo não pavorrrrrrrrrrrrrrrrrrr. kkkkkkk O resto agente encara de frente.

  2. Bruno O. Barros says:

    De barata a gente não tem medo. Tem meda.

  3. Kelma says:

    Eu tenho meda de cobra!! Ainda bem que elas aparecem menos que baratas!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
    Gostei do texto! O medo realmente é opressor. Pessoas deixam de viver, de fazer o que querem, ou muitas vezes precisam, por medo. Isso é ruim.
    Mas uma dosezinha de meda não faz mal a ninguém né?? :P

  4. Márcia says:

    eu tenho que aflorar meu meda!
    hahahaha
    MUITO BOM O TEXTO!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>