Da boca ao reto

“E aê, beleza?”, Edivan disse abrindo a porta. “Tranqüilo”, respondi sem dar bola para o caráter genérico da resposta. Entrei de mãos dadas com Eloísa como se não tivéssemos acabado de ter uma discussão daquelas que fica maior do que é. Disse oi para as pessoas que haviam chegado e sentei num sofá que, se não me engano, era novo. “Esse sofá é novo?”, perguntei, mas Edivan não ouviu e foi pra cozinha. Eloísa saiu para conversar com Alexia, que estava usando um vestido mais curto do que minha fidelidade gostaria. “Porra, tá gata pra caralho”, a voz de Hélio disse. Olhei para o lado e era ele mesmo. Para fingir ter problemas em adjetivar positivamente a capacidade que mulheres que não a minha possuem em me atrair sexualmente, olhei encantado pela curvatura incorrigível que o vestido de Alexia fazia assim que chegava ao seu fim, perto da bunda, e não disse nada. Depois de um tempo peguei uma lata de cerveja na geladeira e quando fechei a porta, Hélio perguntou como andava o livro. Supus que ele estivesse me provocando e não me dei o trabalho de explicar que não tratava-se de um livro, mas simplesmente de uma história escrita num documento digital sem maiores intenções de um dia ver os horizontes steampunk de uma gráfica. “Tá indo.” “É isso que a maioria diz.” Bebi um gole da cerveja e senti uma gota de suor escorrer pela têmpora esquerda enquanto eu me segurava para não lhe perguntar que caralho ele quis dizer com aquilo. Nesse mesmo instante, Alexia e uma outra mulher que até então não conhecia, se aproximaram. “É você que é o escritor?”, perguntou a desconhecida. Dei outro gole. “Na verdade, não, mas eu escrevo. Tenho o hábito de varrer a casa também, mas isso não faz de mim um faxineiro.” “Será que não?” “Não”, respondi seco. Minha tolerância para perguntas circulares nunca foi algo que eu usasse para definir como traço de personalidade num daqueles pingue pongues aos quais jornalistas pouco criativos submetem seus entrevistados em colunas de 1/4 de página de jornal. De repente, Alexia disse que havia terminado de ler o esboço que eu a enviara por e-mail. “O que você achou?” “Achei que você deveria colocar as vírgulas dentro das aspas.” “Nos diálogos?” “É. Acho estranho que você faça o contrário do que se faz.” “Que eu saiba não existe um padrão.” “Eu sei que é facultativo, mas a maioria coloca a vírgula dentro.” “Bom, eu vejo as aspas como demarcadores daquilo que foi realmente verbalizado e, nesse sentido, sendo a vírgula um elemento essencialmente não-fonético, acho que faz mais sentido colocá-la do lado de fora das aspas, pontuando uma pausa que nada tem a ver com o que foi dito pelo personagem”, respondi seguro. “E por que você coloca o ponto final dentro das aspas?” Confesso que nesse momento fui pego de surpresa. No entanto, simulando ter uma resposta pronta, disse rápido que era uma questão estética. Depois da sétima lata de cerveja, quis ir ao banheiro. No caminho cruzei com Eloísa, que conversava com Edivan e a esposa — uma mulher de meia-idade com próteses nos seios belíssimamente projetadas. Dei um beijo do pescoço de Eloísa, que retribuiu com um afago e virei à esquerda no fim do corredor. A porta do banheiro estava fechada. Supus que havia alguém lá dentro e esperei. Algo em torno de quatro a seis minutos se passaram e o usuário do ambiente íntimo ainda não havia dado fim aos seus afazeres fisiológicos; desse modo, presumi que o indivíduo estivesse defecando ou desmaiado. Com toda a impaciência que uma bexiga cheia pode provocar nos ânimos de um homem de boa índole, bati com força na porta do banheiro e perguntei se ia demorar. Ninguém respondeu. Logo atrás de mim havia um lance de escadas que levava ao segundo piso da casa, constituído, acredito, por três quartos e pelo menos dois banheiros vazios. Sei que nesses momentos a boa etiqueta orientaria o bom homem a não subir tais escadas, já que essa atitude poderia ser interpretada como invasiva pelo anfitrião. “Porra, eu já cedo a casa pra fazer a festa e ainda vem neguinho cagar no banheiro que eu e minha esposa tomamos banho todos os dias!”, esbravejaria com justiça qualquer um, embora o que eu queira fazer seja mijar, não cagar. Resolvi esperar mais um pouco e uns outros três ou quatro minutos se passaram. Desesperado por já não estar conseguindo mais segurar o vulcão em minhas calças, voltei para compartilhar meu sofrimento com Eloísa, mas ela não estava mais do outro lado do corredor. Através de uma das janelas, a vi do lado de fora da casa rindo de alguma coisa que provavelmente uma das sete pessoas ao seu redor havia acabado de contar. Se eu não estivesse com micro-jatos de urina sendo disparados pelo meu pênis, provavelmente ficaria curioso em saber o que era tão engraçado. Voltei para a frente do banheiro, que continuava ocupado. Senti meu corpo ficar dormente. Por um momento achei que a urina estivesse começando a sair por todos os poros do meu corpo. Fiquei enojado de mim mesmo e pus-me a subir as escadas. Sem conseguir coordenar qualquer tipo de pensamento elaborado, abri a primeira porta que vi assim que cheguei no segundo piso e fui tomado por uma cena que só consigo descrever hoje porque a dureza por trás da sua realidade parece ter desbotado com os anos. No quarto, que depois descobri ser a suíte em que Edivan dormia com sua esposa de meia-idade, vi duas figuras em cima da cama numa posição que, na época, considerei pouco usual. A amiga desconhecida de Alexia encontrava-se nua, deitada de frente para a porta e, por sua vez, Alexia, em pé na cama, também nua e com as pernas abertas em cima da amiga, desferia vigorosos jatos de urina em direção ao orifício que daria inicio ao aparelho digestivo da companheira. No impulso, mijei nas calças, pedi desculpa e fechei a porta. Da cozinha, liguei para Eloísa e disse que eu havia me urinado sem querer. Inicialmente ela riu, mas depois ficou nervosa porque tivemos que sair da festa, já que eu recusei a bermuda que Edivan propôs a me emprestar. Quando eu contei para Eloísa a bizarrice que havia presenciado, ela deu um sorriso de canto de boca e beijou meu pescoço. Temeroso, optei por nunca mais tocar no assunto. Terminei de escrever o livro e, de fato, nunca chegou a ser publicado já que mostrei-me irredutível às sugestões dos editores que implicavam com a maneira em que posiciono minha vírgula.

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6 Responses to Da boca ao reto

  1. Kelma says:

    Velho, numa situação dessas eu tb faria xixi nas calças…
    Mas o melhor foi o sorriso de canto de boca da esposa do cara… MEDO! Melhor ficar calado!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  2. Paula says:

    nossa, alguns homens diante dessa situação pulariam na cama, mas o personagem apesar de pensar em infedelidade se mostra fidelíssimo.

    Muito engraçado esse causo.

  3. Bruno O. Barros says:

    A infidelidade do personagem só vai até o que ele conhece. depois disso, fica fielzinho da silva.

  4. Diego Maynard says:

    Adorei o causo, quebrou minhas expectativas.
    hahahahaha
    ainda bem >_<

  5. Ana Maria says:

    Os comentários acima são muito interessantes. Mas pra ser sincera eu me acabei de rir. Não sei se é a forma que vc escreve, que me surpreende, ou se realmente é muito engraçado. O pior é que fico visualizando a cena, de tão real que ela parece. Adorei.

  6. Márcia says:

    Eu vizualizei a cena toda kkkkkkkk… eita mira boa!

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