Tela de prata

Nos deitamos na rede e ficamos olhando as estrelas. Em muitos momentos da vida, nossos gestos não passam de imitações patéticas daquilo que assistimos no cinema ou na televisão. Gostamos de simular aquela realidade, de trazer um pouco de sonho para o que convencionamos chamar de mundo real. Foi por esse motivo, acredito, que nos deitamos na rede e ficamos olhando as estrelas naquela noite de primavera. Não falávamos nada um para o outro, embora pudéssemos simplesmente dizer algo como “Estamos fazendo igualzinho a como se faz no cinema”, e “É mesmo, pensei a mesma coisa”, responderia ela antes de me beijar com paixão. Mas não! Verbalizar essas coisas estraçalha o pacto silencioso de atuar fora do palco. O silêncio nesses casos — nesses momentos em que maquiamos nosso entorno de forma tão consciente — é o laço invisível que dá unidade à cena. Assim como os melhores atores mantêm-se impassíveis a quaisquer desordem fora da cena em que vivem naquele momento, devemos sempre observar as estrelas em silêncio. É lindo. “Eu passei a noite com Hélio ontem,” disse-me ela de súbito. Virei rápido, “Como assim?” “Fiz sexo com ele.” “Que caralho é isso?”, gritei empurrando-a. “Desculpa falar assim do nada. Achei que fosse melhor do que enrolar.” “Porra, é sério mesmo?” “Eu não brincaria com uma coisa dessa, mas fique calmo, eu explico.” “Explicar o que, cacete!?” Ela ficou calada. “Por quê?”, insisti. “Por que, o quê?” “A gente tinha acabado de voltar, eu não mereço isso.” “Não é questão de merecer, Sávio. Eu errei. Sei disso. Mas seu irmão errou também.” “Piranha!” Ela não respondeu. Fiquei sem saber o que pensar direito. Pipocou-me na cabeça um desejo incontrolável de quebrar pratos e chorar. Coloquei a mão no rosto como se segurasse a parte superior do nariz: o polegar no canto externo do olho esquerdo e o dedo indicador no outro, e último, olho. “Vagabunda do cacete!”, gritei mais forte e projetando a mão em sua direção como se meus dedos pudessem desferir adagas venenosas contra a sua jugular. “Não precisa exagerar,” ela teve a coragem de dizer. “Exagerar?, exagerar?, porra! Enlouqueceu? Você tinha jurado que não ia mais me enganar.” “Eu não te enganei, Sávio. Estou cumprindo minha promessa. Contei tudo pra você. Só não contei antes por falta de oportunidade.” “Oportunidade pra trepar com ele você teve, né?” Ela fez uma cara de lá-vamos-nós-de-novo e voltou para a rede. Discutimos por duas horas e quarenta. Ela sabia que não havia nenhuma desculpa respeitável para o que fizera na noite anterior, mas mostrou-se verdadeiramente arrependida. Pude ter certeza disso quando ela chorou. Cheguei a sentir uma quantidade razoável de lágrimas pingar na minha perna. Nos abraçamos e como bom cristão concedi-lhe pela terceira vez a graça do perdão. Amores verdadeiros não devem acabar assim, sob esse belíssimo teto estrelado que, novamente, se exibe para nós. Como nos filmes.

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2 Responses to Tela de prata

  1. Kelma says:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Esse merece mesmo!!

  2. ALEXANDRA FREIRE says:

    O poder das estrelas!!! kkkkkkkkkkkk

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