Testículos de bode e putas asiáticas

“Foi normal, nada demais”, ele respondeu. Eu havia lhe perguntado quais foram suas impressões a respeito do seu primeiro dia de malhação numa simpática academia que abrira há seis meses na rua de trás. “Conheceu alguém interessante?”, perguntei tentando esconder a insegurança. “Tinha um rapaz lá muito boa gente.” Aliviada por seu interesse não ter sido investido em alguém do sexo oposto, continuei: “Será que eu conheço?” A pergunta fazia sentido já que, conforme dei a entender no início do parágrafo, a academia localiza-se bem perto de onde moramos. “Talvez, é um bem grandão. Ele é profissional.” Pensei um pouco e não pude lembrar de ninguém, “Halterofilista?” “Isso.” “Hum, não conheço. Deve morar em outro bairro.” “Ele vai participar do seu primeiro campeonato profissional em Agosto.” “Não acho bonito esses homens muito musculosos.” “A questão não é essa, o legal é a determinação por trás dos músculos.” “Nem venha querer ficar grandão assim.” “Tá maluca?, mal tenho coragem de malhar pra perder peso, imagine então pra ficar do tamanho de Hermes”, ele disse me passando a panela molhada. Puxei o pano de prato e pus-me a enxugá-la. “O que leva alguém a querer ficar tão musculoso nos dias de hoje em que esforço físico é a menor das nossas demandas?” “Além de querer se enquadrar num padrão de beleza pré-estabelecido?” “É, além disso.” “No caso de Hermes foi uma promessa.” “Promessa?”, virei interessada. “Ele prometeu para o pai no seu leito de morte”, disse enquanto passava a esponja na frigideira enegrecida de ovo. “Prometeu que ia ser halterofilista?” “É.” “Sério?” “Sério.” “Do nada?” “O mais engraçado é que foi do nada mesmo. O pai dele nunca, em momento nenhum da vida, expressou qualquer indício de que apreciasse esse negócio de culto ao corpo.” “E perto da morte ele pediu para que o filho fosse halterofilista?” Ele me passou a frigideira, “Na verdade ele disse fisiculturista, parece que tem uma diferença. Foram as últimas palavras dele.” “Será que esse Hermes não pensou na possibilidade do pai estar delirando nos seus momentos finais?” “Ah, deve ter pensando… mas quando se trata das últimas palavras do seu pai a gente não pode se sustentar em conjecturas.” Enxuguei dois copos, virei sorrindo e perguntei, “Então, se tivesse sido seu pai, você faria a mesma coisa?” “Sem sombra de dúvida.” Fiquei calada por uns instantes. É engraçado como a morte ou a proximidade dela nos confere um poder quase divino sobre os outros. Quando somos atores ativos conseguimos o que queremos de quem quer que seja por via do medo da própria morte; quando somos atores passivos o poder se estende por aqueles nos ama e pelos que sentem compaixão por via da pena e da nossa capacidade de nos projetarmos no outro. “Isso pode ser ruim pra você, Glauber.” “O quê?” “Pensar assim.” “Assim como?” “Assim. Nesse negócio de achar que devemos fazer tudo o que nos pedem os entes queridos em seus leitos de morte.” “Eu acho que isso é uma forma de conceder ao moribundo um último desejo; e que seja algo significativo, então.” “Pois é, e você acha que ser halterofilista é significativo?” “Ah, mas quem somos nós pra julgar isso?” Senti uma coceira de irritação na garganta. “Se, em seu leito de morte, seu pai pedisse que você me deixasse, você faria isso?” Ele nem olhou pra mim. “Não seja ridícula, meu pai te adora.” “Do mesmo modo que o pai de Hermes mal sabia o que era halterofilismo.” “Fisiculturismo.” “Que seja. Me responda.” “Não quero responder isso, Helen. Que coisa boba.” “Boba vírgula. A resposta para essa pergunta tem o papel de sustentar, ou não, os alicerces do nosso relacionamento.” “Cacete, você vai longe, hein?” “Não fuja da resposta, Glauber.” “Tá, pô. Eu te deixaria, pronto, satisfeita?” “Como é? Você me deixaria se seu pai pedisse isso no leito de morte dele?” “Deixaria. Que besteira.” “Glauber, não me tire do sério! Quer dizer que se seu pai pedisse para você fazer sexo com nove prostitutas asiáticas ao mesmo tempo você faria?” “Se ele estivesse morrendo?” “Claro, a conversa toda é sobre isso!” “Nove é muito, não sei se agüentaria”, o filho da puta respondeu rindo. “Viado do caralho!”, gritei atirando o copo contra o chão. “Helen! Que é isso? Calma!” “Calma uma porra, viado! Quer dizer que se seu pai pedisse pra você chupar os testículos de dois bodes ao mesmo tempo, você chuparia?” “Você pirou.” “Você preferia as nove putas asiáticas ou os ovos dos bodes?” “As nove putas, eu acho…” “Safado!” “Calma.” Depois da briga fui para a casa da minha mãe. Dormi por quatro dias lá. Glauber não telefonou uma única vez. Quando voltei ele não estava em casa, mas os vizinhos avisaram que ele teve que fazer uma viagem urgente para o interior; disseram que o pai dele estava muito mal e sua mãe havia telefonado pedindo que ele fosse ver o pai antes que o pior acontecesse. Rezei para que o velho morresse antes que pudesse falar com o filho.

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4 Responses to Testículos de bode e putas asiáticas

  1. Zeca Camargo says:

    Boa idéia pro programa. Valeu!

  2. Kelma says:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Falou dos testículos do bode, o cara arregou!! Se esse negócio de último desejo vira moda… sei não.

  3. ALEXANDRA FREIRE says:

    SOU FÃ DESSAS PERGUNTAS QUE NOS DEIXAM SEM SABER PRA QUAL LADO TEMOS QUE IR! HELEN BOTOU PRA LÁ!!!! E A SINCERIDADE DO GLAUBER É TÃO ÓBVIA E AO MESMO TEMPO DIVERTIDA! RSRSRSRSRS…. MAS EU PRECISO MESMO SABER SE O VELHO MORREU E SE ROLOU UM PEDIDO DE ÚLTIMA HORA… CONTINUAÇÃO PLEEEAASEEE!

  4. Ana Maria says:

    Esse negócio de pedido de última hora, acho que pra mim nao dava certo não,agente já é difícil de cumprir pedidos de quem está vivo (cobrando sempre) imagine de quem fala uma vez e vai embora?kkkkkkkkkkkk

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