Saramago, Twitter, universitárias e a leitura

Recentemente, vi num blog popular que José Saramago, em entrevista ao Globo, fez a seguinte observação a respeito do Twitter:

“Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.”

Claro, não demorou que a frase de efeito virasse motivo de debate no próprio Twitter e em listas de discussões via e-mail (sim, elas ainda existem), resultando em opiniões polarizadas: mimimis e manjadores. A maioria das pessoas esquecem que José Saramago é quase um centenário que mantém um blog atualizado por ele mesmo e numa freqüência incomum para pessoas com o seu perfil. A meu ver, isso já diz muita coisa sobre o homem. De modo geral, quando você é um escritor consagrado pelo Prêmio Nobel de Literatura, possui mais de 70 anos e tem livre acesso às partes íntimas de qualquer universitária de um dos seguintes cursos — jornalismo, letras, artes, publicidade, história, ciências sociais e variantes  —, você pode se dar o luxo de não ter um blog, oferecer o dedo médio para meio mundo e falar idiotices para jornais de grande circulação.  Mas, até onde eu sei, José Saramago tem, sistematicamente, aberto mão dessas tentações. Ou não? Ao mesmo tempo em que simpatizo com sua crítica aos 140 caracteres do Twitter, vejo nela a reclamação de um velho cabeça-dura, disposto a fortalecer sua tese recorrente de que as pessoas lêem cada vez menos, quando, na verdade, é evidente que hoje em dia as pessoas lêem mais que a 10, 100 ou 1.000 anos atrás. O mundo nunca foi tão alfabetizado e, paralelamente, dominado por uma mídia essencialmente textual, como a Internet. Se antes as pessoas conversavam por horas na pracinha do seu bairro, hoje elas o fazem através da escrita e da leitura em suportes como os programas de bate-papo, redes sociais e celulares, através de mensagens SMS. Mensagens estas que deram origem ao Twitter. Até onde sei, a explicação técnica do limite de 140 caracteres do Twitter reside no fato de que suas mensagens podem — e, na verdade, foram projetadas para tal fim — ser enviadas via SMS; que, como sabemos, tem um limite de 160 caracteres (os 20 caracteres excedentes serviriam para acomodar o telefone do remetente). Portanto, reduzir uma limitação técnica a uma suposta tendência ao grunhido é tipicamente a hipótese de um homem que embora tenha um blog, não envia mensagens SMS. Nessa celeuma toda, o que me assusta mais não é quem escreve no Twitter (como eu), mas quem usa o Twitter como fonte primária de leitura. Certo, é uma contradição consentir com a escrita e criticar a leitura, mas suspeito que esta seja uma contradição que encontra eco na prática. Hipotetizo que, para a sorte da saúde mental do mundo, as pessoas escrevem mais no Twitter do que lêem o Twitter, tocando para frente a falsa sensação de que quem nos segue realmente liga para nós, quando, na verdade, não.

Fiquemos, então, com um adendo: Jorge Luis Borges, no prólogo do seu Ficções, opina:

“Desvario trabalhoso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos.”

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3 Responses to Saramago, Twitter, universitárias e a leitura

  1. ALEXANDRA FREIRE says:

    140 CARACTERES É FODA MESMO…MAS…TEM MUITA GENTE QUE FALA MUITO E NÃO DIZ NADA..PRA FALAR MUITO ( E DIZER ALGO DE FATO) VAMOS ESCREVER UM BLOG OU UM LIVRO RSRSRSRSRSRS O TWITTER DEFINITIVAMENTE NÃO É PRA ISSO.. MAS O JOSÉ SARAMAGO TEM MORAL…RSRSRSRSRS

  2. Digamos que o twitter é um telégrafo da modernidade, além de ser mais barato que enviar várias SMS diariamente.

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