O pênis arrancado

“E ela topou?” “Claro, porra,” ele respondeu, “depois do chega pra lá não tinha como não ir.” “E aí?” “Cara, na verdade eu só sei o que me contaram.” Essa era sua forma de dizer que provavelmente os eventos que narraria dali em diante não fariam eco ao que de fato ocorrera, se é que qualquer coisa ocorrera… Não, pensando melhor, deve ter ocorrido sim. Histórias (e aqui faço uso da grafia iniciada com h a fim de reforçar minha noção de que história é sempre história) como essa que ele vai me contar daqui a algumas linhas dificilmente se originam por completo do pulsar criativo de alguém; são por demais < sugerir adjetivo inopinado aqui >  para não terem acontecido de verdade. “E o que foi que te contaram?”, insisti. “Bom, eles entraram no carro em direção ao motel.” “Qual?” “Aquele perto da saída do escritório.” “O Nosso Prazer?” “Deve ser.” “Acho que sim, cara, é o único por ali.” “Que eu saiba tem um outro se você descer a ladeira e pegar a direita.” “Tem?” “Pra mim, sim.” “Acho que ali é um puteiro.” “Tanto faz.” “Tanto faz? Leva sua mulher pro puteiro então e diz pra ela que tanto faz.” “Sifudê, porra.” “Mas não tanto faz?” “Tanto faz pra história!” “Sim, diz logo, foram pro motel?” “Eles nem chegaram a entrar.” “Não?” “Claro que não, a merda foi antes.” “Pensei que tivesse sido depois.” “Pelo que disseram, quando eles estavam no caminho ele  abriu o zíper e pediu pra ela—pera, preciso atender.” Era o celular dele tocando. “Alô,” ele disse. “Oi, tô trabalhando. Pois é. Não. Não. Certo. Tô ocupado, porra, cheio de merda pra fazer. Certo. Cacete. Falou. Outro.” “Quem era?” “Um fela da puta da ouvidoria.” “Sei.” “Agora vou ter que passar no cartório antes das três.” Ele pegou um papel da mesa ao lado e guardou numa pasta amarela. “Sim, mas diz aí.” “Ah, é. Bom, aí você sabe. Ela colocou a boca lá e mandou ver.” “Ela já estava afim, então.” “É possível.” “Possível? É claro que estava, não fez nenhum cu doce nem nada.” “Cu doce é para os fracos.” Nesse momento peguei um post-it rosa choque. “O que foi?”, ele perguntou. Não respondi. Só anotei que cu doce era para os fracos para depois lembrar de colocar como mensagem pessoal no Live Messenger. “E a batida?”, perguntei. “Taí a merda. A batida foi quando ela estava com a boca lá e na hora do impacto ela fechou a boca com tudo.” “Caralho! Deve ter—” “Pois é, é por isso que não estão deixando ele receber visita.” “Entendi. Bom, vai lá no cartório, então. Vou ver se baixo o episódio de ontem de Gray’s Anatomy.” “Falou.” “Falou.”

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5 Responses to O pênis arrancado

  1. Kelma says:

    Caraca!!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  2. Airton Rocha says:

    Rulez :P
    Sucesso ai !!!

  3. Luis Inacio da Silva says:

    Foi igualzinho com meu dedo…

  4. simone says:

    hahahahah coitado!

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