Mario, Luigi e o último dos escritores

Eu queria ser o último dos escritores, pois é sempre no último que as pessoas acreditam mais. Assim, especulo, tendo como base principalmente minha observação pessoal, que no geral acreditamos mais naquilo que tomamos conhecimento por último. Se uma determinada informação nos arrebata num dia, pode muito bem ser anulada no dia posterior por uma outra informação adversa. Naturalmente  — diria o leitor médio —, afinal, novas informações são mais confiáveis que informações antigas, visto o percurso evolutivo do pensamento humano. Gargalho. É o que eu faço: gargalho. Quantas boas idéias ficaram perdidas no tempo? O que chamam de “evolução de pensamento” nada mais é que um conceito arrogante e raso; uma forma de curvar-se ao que nos chega do Mundo Mágico da Academia™. Peguemos a matemática como exemplo: poucas coisas são mais overrated que a matemática. Existe todo um auê ao redor da matemática e das ciências exatas no geral que me irrita profundamente. Não é incomum ouvir em discussões o clássico bordão: “É matematicamente provado que…”, ou “É cientificamente provado que…”. Errado! É cientificamente provado que 99% das pessoas que falam isso não sabem exatamente o que estão falando < e, assim, o feitiço volta-se contra o feiticeiro >. É como se o fato de colocar a matemática ou a ciência no meio da conversa adicionasse legitimidade aos argumentos de um orador qualquer. Mais uma vez: gargalho.

Visto isso, afirmo: o fato de valorizarmos mais as novas informações se dá numa fé cega de que a ciência (ou, para ser mais justo, o que nos chega dela) necessariamente evolui. Ciência esta que já provou, milhares de vezes, ser absolutamente capaz de cometer as mais estapafúrdias formas de tolices: como a invenção da esteira ergométrica (assunto que será abordado num outro post). No entanto, embora essa falta se senso crítico ou excesso de fé explique muito, dou-me o luxo de divagar um pouco mais sobre outros possíveis motivos dessa hipervalorização do conhecimento posterior.

Pensemos um pouco sobre o ato de querer acreditar no novo; na sede de caminhar para frente. Inúmeros estudiosos da modernidade — dos anglófonos aos francófonos — aprofundaram-se na busca pelas características do homem moderno; e destas, sem dúvida, uma das mais unanimemente citadas é a efemeridade; a busca pelo novo (em oposição ao caráter conservador dos povos orientais durante o mesmo período). Extrapolemos essa noção propondo que caminhar para frente, ou progredir, está fisicamente relacionado ao ato de caminhar da esquerda para a direita e que é comum ao ser humano entender o progresso desta forma. É só lembrar que é esse o sentido da rotação da Terra; do relógio; o sentido em que que Mario e Luigi percorrem em suas aventuras para salvar o Reino dos Cogumelos das garras do malvado Bowser.

Um outro elemento importantíssimo que sugere um progresso no sentido esquerda-direita é a escrita. Neste caso, a escrita ocidental (chegamos, pois, ao cerne do texto). Desta forma, pode-se fazer um paralelo entre a sede de mudança que marcou (ou marca?) a modernidade do mundo ocidental e sua escrita, onde a última palavra é acompanhada do ponto final: o ponto decisivo que representa o fim, a verdade absoluta. E assim pensam os ocidentais, onde cada palavra lida é mais verdadeira, mais evoluída e mais próxima da verdade que a anterior.

Já a forte paixão pelas tradições que caracteriza (ou caracterizou?) a maioria dos povos orientais poderia ser refletida na forma como estes escrevem e lêem: da direita para esquerda. Contrária ao movimento de rotação do planeta. Contrária até ao andar dos Marios e Luigis italianos que eles mesmos criaram. E assim se enraiza o tradicionalismo oriental: numa busca pelo passado; num entendimento de mundo em sentido inverso àquele que a ocidentalidade nos induz a viver; no auto-conhecimento.

Como já disse, eu queria ser o último dos escritores, pois é sempre no último que acreditamos mais.

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One Response to Mario, Luigi e o último dos escritores

  1. Bruno O. Barros says:

    Taí um texto antigo que precisou passar por severas edições para ser publicado aqui. Digamos que esse seja o “Bom Moço Remix” de um texto ainda mais adolescente, irresponsável e dicotômico que o que apresento agora.

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