A preconceituosa mão de Deus

“Você é uma pessoa religiosa?”, ele me perguntou sem muita enrolação. “Não”, respondi seco. “Entendo”, ele disse enquanto acendia um cigarro, “mas acredita em Deus?” “Isso depende… o que Ele está alegando?” “Rá, rá!” Assim, pensei ter conquistado a simpatia do advogado. “Você sabe que minha filha é católica.” “Sei.” “E como fica essa sua flexibilidade religiosa no relacionamento.” “Confesso que nunca parei pra pensar nisso.” “Maria Clara perdeu a mãe faz pouco tempo.” “Ela me contou.” “As circunstâncias foram… sinistras”, ele disse olhando para a parede atrás de mim. Até onde eu sabia, o corpo da mãe de Maria Clara tinha sido encontrado dentro do box do banheiro com o chuveiro ainda ligado, ela estava com os dois globos oculares desprendidos do rosto e toda cagada. Se não fosse a carta de despedida, qualquer um apostaria num homicídio bizarro. A autópsia acusou overdose de triazolam. “Eu soube, sinto muito.” “Tudo bem, só quero que você entenda a importância que Maria Clara tem pra mim.” “Eu sei, afinal, também sou pai.” Ele riu como se eu estivesse brincando. “Como é?” “Maria Clara não disse?” “Você é pai?” “Olha, foi um erro… coisa do passado.” “Você acha que seu filho foi um erro?” “Veja bem, Seu Paulo, eu era jovem.” Ele franziu a testa. “Quantos anos você tem?” “Trinta e quatro.” “Trinta e quatro!? Por Deus, você tá maluco? Minha filha é uma criança!” “Seu Paulo, ela me parece bem madura.” “Ela tem dezesseis anos, seu infeliz!” “Eu sei, mas ela tem uma cabeça bastante desenvolvida para idade.” “Que diabos um cara de trinta e quatro anos faria num relacionamento com uma menina de dezesseis?” “Como assim?” “Vocês nem iam ter o que conversar.” “O senhor está subestimando a inteligência da sua filha; além disso, um relacionamento não é feito só de conversas.” “Isso é o que me preocupa.” “Por favor, Seu Paulo, sua filha não é nenhuma santinha.” “Ah, isso você sabe bem, né?” “Eu ainda não, mas é só perguntar pra o pessoal do teatro com quem ela anda.” “Rá, você tá insinuando o quê?” “Sua filha já foi iniciada, Seu Paulo.” Pra minha surpresa, ele não rebateu. Sentou, arrumou o cabelo (que em seu alvoroço saíra do lugar) e disse: “Eu sei… mas ainda assim a diferença de idade é muito grande.” “Isso pode ser extremamente benéfico para o relacionamento. Depois de tudo o que Maria Clara passou, talvez ela esteja precisando exatamente de alguém mais maduro.” Ele me olhou nos olhos. “Pelo amor de Deus, usem preservativo.” “Quanto a isso não precisa se preocupar… o uso do preservativo já se tornou natural pra mim.” Ele olhou confuso, ficou um instante em silêncio e perguntou: “Medo de colocar outro filho no mundo?” “Não é isso. Faz oito anos que sou soro positivo.” Naquele momento, Seu Paulo deve ter clamado por Deus com muita força, pois uma mão gigante arrebentou o teto da casa, me segurou como uma bolinha de tênis e me arremessou em direção à constelação de Orion. No outro dia acharam meu corpo na beira da estrada com os globos oculares desprendidos da face e todo cagado.

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O câncer dos outros

“Por exemplo”, respondi, “ontem mesmo eu estava lendo um conto de Arthur Bradford sobre um cara que só notou no segundo encontro que a sua atual ficante não tinha um dos braços.” No entanto, Elisa já não me ouvia mais e só chorava. No dia anterior tivemos uma conversa séria depois do jantar com os pais dela onde me foi revelado que a doença que a afligia era câncer. Hoje tomei café e quando Elisa mencionou o câncer, fiquei extremamente surpreso. Foi uma surpresa genuína, como se ela realmente não tivesse me contado sobre seu estado no… Continue lendo | 3 comentários

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Como um tema padrão

Durante os preparativos para a formatura de medicina de um primo, ele chegou para mim e disse “Sabia que tem um designer gráfico na cidade cujo nome é igual ao seu?” A cidade a qual ele se referia era aquela que eu residia na época, Aracaju; e o nome era Bruno Barros, que, até então, era como eu assinava meus trabalhos de design. Lembro que fiquei extremamente incomodado com a idéia de que numa pequena cidade como Aracaju havia um outro profissional do design que atendia pelo meu nome. Sério, estatisticamente falando, qual seria a real probabilidade disso? Então, por… Continue lendo | 7 comentários

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Medo, meda e zumbis

Hoje é chique ter medo. Para ser mais preciso, é essencialmente classe-média. Ter medo é reforçar a presença do inimigo, seja este um político liberal, um preto pobre que cruza a rua ou um novo vírus cujo único remédio eficaz é encontrado exclusivamente em hospitais públicos. Hoje, medo é combustível; dá um propósito, uma direção à vida das pessoas. Sem medo, imagine só, o que fariam? Ó liberdade lancinante que ninguém quer é essa a de ser invulnerável ao medo. Sim, o medo vicia. Uniformiza. Acomoda. E as pessoas têm medo de tudo… Continue lendo | 4 comentários

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